A sabedoria é a coisa principal; adquire pois a sabedoria, emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento.
Provérbios 4:7
Há muito tempo, pensar em uma filosofia na Revelação, principalmente do Antigo Testamento, é comum aos pensadores cristãos. Seja por fragmentos de ideias ou tentativas mais robustas e intencionais. Nós lemos os textos bíblicos em seus diversos estilos literários e variedades de temas, e não conseguimos, se somos minimamente honestos e relativamente conhecedores da filosofia, desvincular o fato de que, dentre tantos temas tratados no Cânon, há de haver Filosofia.
Eu sei que muitos outros cristãos também não veem as coisas necessariamente assim; na realidade, muito mal veem a Escritura como proveniente de grandes saberes para a ampla variedade de temas de nossas vidas, pois preferem defender (e crer) que a Palavra está o tempo todo se preocupando apenas com questões de moral e religião. Uma pena que eles não compreendam algo tão intrínseco e logicamente necessário para essa tese, que é o fato de que somente a partir de uma visão sobre a obtenção do conhecimento e a estrutura da realidade é que se pode ter religiosidade e moralidade explicitadas. E mais. A Escritura, tão rica em temas, em estilos, em formas etc., ao não tratar dessas coisas, não seria uma espécie de desperdício?
Fato é que essas pessoas, como também os ímpios dedicados à filosofia e aos seus estudos, no geral não verificam, na composição do cânon hebraico, e muito menos no Novo Testamento, uma possível filosofia. Eles defendem que é indiscutível que a filosofia nasceu na Grécia e que vai ter seu palco dividido com a fé bíblica somente com os anos de crescimento e avanço da Igreja (de Atos em diante). E, sinceramente, de minha parte, não vejo como um problema essa justa (possivelmente errada) posição. Eu até hoje tenho dificuldade com o significado de Filosofia e sua implicação aos ditos filósofos. Sou protestante demais para acreditar que pagãos como Platão e Aristóteles, Tomás de Aquino, Spinoza e quase toda a patota ocidental (oriental também!?) estivessem de fato buscando a Sabedoria, ou que pelo menos a amassem.
Sou formado pela Escritura; antes de qualquer autor e livro que li, eu sou circundado e afogado no saber bíblico, de modo que não consigo me opor a tal e nem mesmo me compor enquanto indivíduo sem que a dita influência passe pelo crivo escriturístico. Nesse ínterim, a Sabedoria para mim está bem especificada em Provérbios 8, numa pessoalidade que evidencia no texto se tratar do Verbo de João 1; claramente é Cristo Jesus, Nosso Senhor. Seguindo dessa forma, só é considerado sábio pela Sabedoria (a própria definidora) aquele que segue a Lei de Deus, como também no livro todo de Provérbios e em diversos lugares da Palavra se dá com clareza essa ideia. Os textos indicam questões acessórias, como obtenção de saberes, de entendimento, de profusão teórica; afinal, o próprio autor era um mestre em diversas áreas, um Aristóteles da Escritura. Mas veja bem: acessórias. Isso tudo só tem peso real quando aplicado a partir da essência: temor ao Senhor.
Considerando que Deus é um Deus de Revelação, como está explicitado em toda a Escritura, não me encaixa, de modo geral, os ímpios serem sábios. Isso não torna indigesta por inteira as suas ideias, afinal a Providência do Senhor existe e está atuando neles. Mas somente quem tem a Revelação explícita pode julgar as coisas implicitamente boas de ideias demasiadamente humanas e carnais, encontrando ali o que tiver de fragmentos da verdade que ao Senhor aprouve dispor no pensamento dos pagãos.
Mas, considerando ser honesto com o termo Filosofia e sua historicidade, podemos fazer uma oposição mais radical, e um tanto quanto perigosa para muitos, colocando a visão bíblica no patamar de anti-filosofia. Me explico. Se os pensadores pagãos desde os gregos são considerados filósofos, amantes dessa sabedoria do mundo, nós somos a anti-filosofia, amantes da Sabedoria de fora do mundo, mas que controla o mundo. Nós somos o oposto, o símbolo virado de cabeça para baixo, a antítese dessa estrutura. E quero ir mais longe. Nós somos teólogos cristãos.
Definir teologia, quando fechado no escopo do cristianismo, que é a única cosmovisão em que se pode fazer uma teologia real, é dizer que teologia significa o amor pela Sabedoria de Deus. Não é difícil de fazer tal raciocínio, pois é evidente, quando observamos os bons cristãos na história, que eles sempre tiveram amor por Deus e pelo que Ele revelou, ou seja, por sua Sabedoria. Nesse ínterim, não precisamos afundar em grandes detalhes, senão no evidente ponto que trago aqui. Alguns podem espernear, dizendo que não é bem assim, e talvez eu esteja fazendo um discurso de guerra em boa dose mesmo. Mas não podemos negar que há verdade no que falo.
A teologia rastreia o sulco do caminho do conhecimento que se inicia em Deus, e dele decorre todo o restante. O teólogo tem por primazia conhecer a Deus e sua Revelação, ou seja, sua Voz Audível, para que dela possa investigar toda a realidade. Em algum momento, isso pode ter sido abandonado pelo texto tão somente, analisado pelo escopo aparentemente inicial de seu próprio contexto. Mas, como do mesmo modo alguns estudiosos de filosofia fazem tal ato profano, não por isso sendo considerada a filosofia outra coisa do que ela é; do mesmo modo, devemos nós, teólogos de primor, retornarmos ao estado da teologia e superarmos a filosofia enquanto a coisa aqui apresentada.
Eu estou me usando, nesse primado discurso, de um estreitamento linguístico que pode ser de outro modo consertado pela simples palavra adjetiva “cristã” vindo após “filosofia”. Muitos assim o fizeram. No entanto, quero a partir de uma linguagem que podemos dizer anedótica, ou simplesmente ignorada por boa parte da cristandade na história, concluir um posicionamento de guerrilha, que se transfigura em uma rebeldia ao status quo do vislumbre da filosofia e dos filósofos como o epiteto do saber humano; afinal, se a Bíblia, a própria Voz de Deus, me diz que lá está a sabedoria e tão somente de lá será fundada, não há mais o que posso fazer senão militar ao seu lado, como um estandarte que a todo custo quer levantar e expor ao maior número de pessoas, principalmente ao exército inimigo, qual é o nosso símbolo. No meu caso, qual é a verdade de Deus.
Devemos pensar bem, nos aprofundar em um estudo mais denso para verificar, no todo da Escritura, as diversas verdades que são axiomáticas e, portanto, filosóficas. Devemos ter alguma clareza do que fazemos com a Teologia e como a fazemos, porque senão teremos confusão entre diversas matérias e temas. Eu, como escrituralista, já sei meu posicionamento e o deixei aqui. Por mais que eu possa vir a me referir a Clark ou Dooyeweerd como filósofos, será pela estrita comodidade, e não a profunda realidade do que creio. Que possamos sempre observar, aprender e mudar, exceto naquilo que a Escritura nos deixa legado.
Pai dedicado e marido apaixonado, Orlando atua como teólogo elucidativo, aberto ao diálogo e à conversação, mas também firme na resposta às cosmovisões que não se submetem à Palavra de Deus. Sua vocação é articular a verdade bíblica de maneira clara, confrontando visões contrárias e edificando uma visão de mundo alicerçada nas Escrituras.