Marquee Contínua e Perfeita
Destrói-os na tua verdade. Salmo 54:5b Destrói-os na tua verdade. Salmo 54:5 Destrói-os na tua verdade. Salmo 54:5

O Homem Cristo Jesus

Releitura, interpretação e ampliação de A Encarnação de Gordon H. Clark I. O problema real A Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade é o milagre mais estupendo registrado na Escritura, e é também, entre todas as doutrinas cristãs, aquela sobre a qual a igreja mais recitou e menos pensou. Essa acusação parece dura. Ela é dura. Mas quem examinar com honestidade a literatura teológica produzida entre Calcedônia e o presente perceberá que a fórmula de 451 tem sido repetida por quinze séculos como quem repete uma senha, sem que a maioria dos que a repetem saiba dizer o que significam os termos que a compõem. Perguntai a um seminarista, ou a um professor de seminário, o que é uma natureza, o que é uma subsistência, o que é uma pessoa, e observai o silêncio que se segue, ou pior, a torrente de palavras que se segue, palavras que giram em torno do vazio com a solenidade de quem julga estar dizendo algo. Gordon Haddon Clark, moribundo em fevereiro de 1985, escrevia o seu último livro precisamente sobre isso. The Incarnation, publicado postumamente com dois parágrafos finais acrescentados por John Robbins a pedido do próprio autor, é uma obra breve, incompleta, áspera, e possivelmente a contribuição cristológica mais corajosa do século vinte. O propósito deste artigo é triplo. Primeiro, reler a obra e expor com fidelidade o seu argumento, que permanece amplamente desconhecido ou caricaturado. Segundo, interpretar o que Clark deixou implícito, pois a morte o impediu de amarrar as pontas do próprio sistema. Terceiro, e principalmente, ampliar: levar as premissas clarkianas a conclusões que Clark não chegou a formular, mas que decorrem delas com necessidade lógica, e que resolvem dificuldades que ele apenas apontou. Antes de tudo, porém, é preciso enunciar o problema com exatidão, porque quase toda a confusão cristológica nasce de um enunciado frouxo. O problema da Encarnação não é o problema de sua possibilidade. Deus é onipotente; a pergunta sobre como tal coisa pôde acontecer é ociosa. O problema é o de sua inteligibilidade: o que, precisamente, aconteceu quando o Logos se fez carne? A Escritura afirma o fato com clareza abundante. João declara que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Paulo insiste que Deus se manifestou em carne. A confissão de que Jesus Cristo veio em carne é, para João, o critério que separa o Espírito de Deus do espírito do anticristo. Nenhum leitor honesto da Escritura pode negar que ela ensina a Encarnação. A questão é o que a Encarnação é. E aqui Clark observa algo que passa despercebido à leitura devocional apressada: os textos que afirmam a Encarnação mencionam insistentemente a carne, o corpo, e guardam notável silêncio sobre a alma humana de Cristo. Hebreus 10.5 diz que um corpo foi preparado; nenhum versículo diz que uma mente foi preparada. Que o Filho assumiu um corpo é claríssimo, e não perturba ninguém que creia na Bíblia. A dificuldade inteira reside naquilo que os antigos chamaram de assunção da alma racional: como a Segunda Pessoa pode possuir, ou estar unida a, uma alma humana, uma mente humana, uma vontade humana, sem que essa alma, mente e vontade constituam uma pessoa humana? Essa é, talvez, a pergunta mais difícil de toda a teologia, e a história do dogma é, em larga medida, a história das tentativas de respondê-la sem defini-la. II. Calcedônia e a falha fatal A fórmula de Calcedônia confessa um só e mesmo Filho, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade, reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação, concorrendo ambas para uma só pessoa e subsistência. O documento é venerável. Suas negações são preciosas: contra Eutiques, as naturezas não se confundem; contra a divisão grosseira, o Cristo não se parte em dois Filhos rivais. Como cerca de exclusão, Calcedônia presta serviço real, e nada do que se dirá adiante pretende demolir aquilo que ela nega. O defeito está em outro lugar, e Clark o chama, sem cerimônia, de falha fatal: a ausência total de definições. Os bispos reunidos em 451 empregaram os termos natureza, substância, subsistência, hipóstase e pessoa sem definir nenhum deles, e há razões sólidas para suspeitar que não sabiam o que significavam. Não se trata de exigência pedante. Aristóteles, ao usar o termo natureza, definiu-o com exatidão na Física, de modo que quem o lê sabe o que ele quer dizer, concorde ou não. Os bispos não nos deram pista alguma. E o grego hypostasis, que os latinos verteram por persona, admitia na literatura clássica significados que iam de sedimento e fundação até coragem, promessa e título de propriedade. Construir o dogma central da fé sobre vocábulos de tal elasticidade, sem fixar-lhes o sentido, equivale a assinar um contrato cujas cláusulas ninguém leu. A objeção habitual a essa crítica consiste em dizer que o mistério da Encarnação excede a linguagem humana, e que os termos indefinidos são o tributo que a razão paga à transcendência. Essa objeção precisa ser encarada de frente, porque ela é hoje a resposta padrão, tanto do liberalismo quanto de certo conservadorismo piedoso. John Hick sustentou que nenhuma escola teológica jamais explicou coerentemente a doutrina; Frances Young refugiou-se na linguagem do mito religioso, cuja verdade seria incomunicável fora do modo parabólico; e apologistas supostamente ortodoxos responderam que a doutrina é paradoxal e assim deve ser, como se o paradoxo fosse ferramenta do pensamento teológico e não o seu atestado de falência. Ora, um paradoxo, quando não é figura de retórica, é uma contradição que ainda não teve a honestidade de se apresentar pelo nome. Se as palavras humanas não podem exprimir a verdade sobre Cristo, então a Escritura, escrita em palavras humanas, não exprime a verdade sobre Cristo, e o cristianismo inteiro se dissolve em sentimento. A defesa da Encarnação por via do paradoxo é uma rendição disfarçada de reverência. Quem