O infralapsariano vai ter que deduzir um Deus que está agindo segundo a cronologia do mundo. Porque é um Deus que cria, depois decreta o pecado, e depois desenvolve. Ou seja, é um Deus que está pensando dentro do limite do tempo. Um Deus que está limitado ao tempo, que está respondendo ao tempo, que não tem uma visão completa do fim desde o início. É um Deus que está lidando com os eventos conforme eles surgem, como se estivesse ajustando seu plano à medida que as coisas acontecem. Isso é, de algum modo, um Deus que parece aprender com o tempo. E isso, ainda que o infralapsariano não admita diretamente, é o resultado prático da sua ordem lógica dos decretos. Um Deus que cria, espera a queda, observa, então reage. Um Deus reagente. Isso é um problema enorme.
O supralapsariano não. Ele está defendendo um Deus que está o tempo todo consciente do que quer fazer, que sabe exatamente o fim que deseja, e que estabelece todo o processo em função disso. Um Deus que está trabalhando com um fim glorioso desde antes da fundação do mundo. Um Deus que tem como objetivo central e absoluto a sua própria glória, por meio de Cristo, revelada na redenção do seu povo. Esse é o Deus das Escrituras. O Deus que diz que tudo foi feito por ele, por meio dele e para ele. O Deus que declara que tudo está subordinado à sua vontade soberana. O Deus que não apenas prevê, mas decreta todas as coisas.
Quando nós lemos a Escritura com os olhos certos, nós vemos isso: vasos de honra e de desonra sendo formados conforme o conselho da sua vontade. Deus não é um agente passivo observando os eventos para então reagir. Ele é o autor soberano que escreve a história, não simplesmente como alguém que a permite, mas como aquele que a determina. E isso é fundamental para compreender a ordem lógica correta dos decretos. Deus não é um idealista frustrado que tentou algo, viu dar errado e depois decidiu salvar o que dava para salvar. Não. Deus é o Criador que planejou a redenção, que decretou a queda para que houvesse redenção, que decretou a criação para que a história da redenção ocorresse. E tudo isso com o fim último de glorificar a si mesmo em Cristo.
O problema do infralapsarianismo, então, não é apenas um detalhe técnico da ordem lógica. É uma visão defeituosa do próprio caráter de Deus. Se você diz que Deus só decreta a salvação após a queda, então a redenção se torna uma reação e não uma expressão original e eterna do seu plano. E se é reação, já não é soberania absoluta. E se não é soberania absoluta, já não é o Deus bíblico. Isso compromete tudo: a doutrina da providência, a doutrina da eleição, a teologia da história, a visão do mal, a antropologia, a cristologia e por aí vai. Porque tudo se sustenta no caráter de Deus como soberano e como aquele que decreta o fim desde o princípio.
Agora, se o infralapsariano é minimamente coerente, ele vai ser um determinista. Mesmo que ele coloque a queda antes do decreto da redenção, se ele defende que Deus decretou todas as coisas, ainda assim vai cair na estrutura do determinismo. O problema é que muitos deles não param por aí. Eles começam a defender uma filosofia da história que não é bíblica, começam a atribuir a Deus uma passividade que as Escrituras não reconhecem, e acabam dando mais poder à criatura do que ao Criador. E aí, sim, a coisa degringola.
A real é que Deus é soberano. Ele está ativamente cuidando de tudo. Ele decretou tudo, inclusive a queda. E Ele decretou de modo ativo. O erro mais comum é entender o infralapsarianismo como se Deus tivesse criado o mundo, a queda tivesse acontecido de modo independente, e Deus tivesse olhado aquilo e pensado: “Bom, agora vou salvar alguém.” Isso é absurdo. Isso é dar ao tempo e ao pecado uma autonomia que eles nunca tiveram. Deus é Senhor do tempo. Deus é Senhor da queda. Deus é Senhor da redenção. Deus é Senhor de todas as coisas.
A ordem lógica correta é supralapsariana. Deus decreta, primeiro, a glorificação da sua graça. Depois, decreta a redenção como meio de alcançar essa glória. Depois, decreta a queda como cenário necessário para que a redenção faça sentido. E, por fim, decreta a criação como palco onde tudo isso se desenrolará. Essa é a ordem. Essa é a estrutura. É isso que revela um Deus soberano, um Deus que conhece o fim desde o princípio, um Deus que não age por reações, mas por decretos eternos e absolutos.
Portanto, se você não consegue enxergar a superioridade bíblica do supralapsarianismo, o mínimo que se espera é que você seja determinista. Qualquer coisa além disso já é erro grave. E se você quer manter sua coerência, vai ter que admitir: um Deus que decreta tudo com base em seu propósito eterno é o único Deus digno de adoração. E esse é o Deus das Escrituras.
Texto sem revisão.
Pai dedicado e marido apaixonado, Orlando atua como teólogo elucidativo, aberto ao diálogo e à conversação, mas também firme na resposta às cosmovisões que não se submetem à Palavra de Deus. Sua vocação é articular a verdade bíblica de maneira clara, confrontando visões contrárias e edificando uma visão de mundo alicerçada nas Escrituras.