Destrói-os na tua verdade — Salmo 54:5

Prática · Vida Intelectual

A ordem de dependência: como se monta uma biblioteca de filosofia e teologia cristã

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Toda lista de leituras já é uma tese disfarçada de serviço, porque, quando alguém lhe diz o que deve ser lido primeiro, não está apenas organizando livros numa prateleira: está entregando, junto com a ordem, os pressupostos pelos quais todos os livros seguintes serão julgados; isso pesa mais do que parece, pois um homem pode começar pela cristologia, aprender a repetir a Confissão de Westminster com precisão e, ainda assim, nunca ter perguntado por que Westminster importa ou como ele sabe que aquilo que confessa é verdadeiro.

O problema das listas correntes não costuma estar nos títulos escolhidos, e muitas vezes os livros são bons; o problema está na ordem. Há listas organizadas pelo prestígio dos autores, outras pela cronologia, outras pela fidelidade denominacional e muitas simplesmente acompanham a curiosidade do leitor naquele mês. Nada disso corresponde à estrutura do conhecimento, porque primeiro vem aquilo que sustenta e, depois, aquilo que depende do que foi estabelecido antes. Toda proposição doutrinária já pressupõe alguma resposta para a pergunta sobre como se sabe alguma coisa, mesmo quando o leitor nunca se preocupou com tal ideia. A biblioteca abaixo segue esse princípio, e eu não estou colocando um livro antes de outro porque gosto mais do autor, porque ele é mais antigo ou porque ficou famoso no meio reformado; cada degrau precisa do anterior. Quando uma obra tem limites, eu os digo, porque livro útil não vira livro infalível só porque está na lista.

Primeiro degrau: o ponto de partida

Vincent Cheung, Questões Últimas

Eu colocaria Questões Últimas na mão do leitor antes de qualquer outro volume desta lista, e a razão é simples: Cheung começa justamente na questão que todos os demais livros já pressupõem, parte da revelação inescapável, mostra o absurdo de qualquer sistema que tente falar sem ela, desenvolve a argumentação que decorre de um axioma autoautenticante e só então atravessa filosofia, logos, metafísica, epistemologia, ética e soteriologia. As perguntas que pareciam independentes começam a aparecer como aquilo que realmente são, partes de uma única cadeia. E aqui está o ponto que precisa ser percebido desde o começo: Cheung não tenta provar Deus para depois provar a Escritura, porque não existe essa subida. Ele começa pela Escritura, e a existência de Deus aparece como conteúdo da revelação, não como conclusão de um argumento cosmológico sustentado por premissas sensoriais. Se isso foi entendido, o essencial do escrituralismo começou a ser entendido. Se não foi, o leitor pode atravessar a biblioteca inteira e traduzir cada autor de volta para o velho esquema que já carregava consigo. No fim terá lido Clark e Cheung, mas continuará pensando como o tomismo popular que trouxe na cabeça.

W. Gary Crampton, O Escrituralismo de Gordon H. Clark

Depois do impacto inicial, o leitor precisa de um mapa. Crampton oferece esse mapa organizando o sistema clarkiano em duas grandes partes, conhecimento e Escritura. Na primeira entram os três métodos epistemológicos, a epistemologia cristã, a relação entre epistemologia e soteriologia e, principalmente, a distinção entre conhecimento e opinião. Na segunda aparecem revelação progressiva, canonização, inspiração e sua extensão, atributos da Escritura, manuscritos e traduções, lei e evangelho, hermenêutica e a relação entre teologia e filosofia. Clark escreveu demais, em gêneros demais e durante tempo demais para que o iniciante perceba sozinho, de imediato, como as peças se encaixam. Crampton poupa esse trabalho inicial, e eu leria com especial lentidão a parte sobre conhecimento e opinião. Quase toda crítica apressada a Clark se atrapalha justamente aí. Dizer que a sensação não produz conhecimento nunca significou recomendar que alguém atravesse a rua de olhos fechados; parece uma distinção elementar depois que foi compreendida, mas, antes disso, muita discussão inteira nasce da confusão entre as duas coisas.

Gordon H. Clark, Três Tipos de Filosofia Religiosa

Aqui começa a demolição, porque Clark pega racionalismo, empirismo e irracionalismo, as três vias que a filosofia da religião efetivamente percorreu, e deixa cada uma falar até mostrar onde seus próprios princípios a levam. O racionalismo passa por Agostinho, Anselmo e pela crítica de Kant. O empirismo passa por Aristóteles e Tomás de Aquino, por Paley e Hume, pelos céticos gregos e pelo apelo moderno à experiência religiosa. O irracionalismo segue de Hume a Hegel, de Kierkegaard a Barth e Brunner, até chegar ao repúdio explícito da lógica. No fim resta o dogmatismo, posição que Clark assume e submete ao mesmo tipo de exame aplicado aos rivais. É aí que o método apagógico deixa de ser uma expressão abstrata: refutar não consiste em dizer que o adversário é ímpio e encerrar a conversa, mas em conceder os pressupostos dele e mostrar o absurdo ao qual eles conduzem. Quem realmente entende o capítulo sobre o empirismo não volta a ler um argumento cosmológico do mesmo modo, porque o problema deixa de parecer uma falha de execução e aparece na própria estrutura: uma premissa sensorial não sustenta a conclusão metafísica que se quer retirar dela.

Segundo degrau: o método em operação

Vincent Cheung, Confrontações Pressuposicionais

Saber o que é o método apagógico ainda não basta. É preciso vê-lo trabalhando num texto bíblico, e Confrontações Pressuposicionais serve muito bem para isso ao montar o livro em três movimentos. Primeiro vêm a precondição do significado, a supressão da verdade, a superstição da ciência e a vindicação de Cristo; depois ele entra em Atos 17.16-34 e acompanha o discurso de Paulo no Areópago versículo por versículo, e por fim resume o programa em três palavras: fundamento, convicção e dominação.

Por que Atos 17? Esse é justamente um dos textos favoritos da apologética clássica quando ela quer encontrar terreno comum entre Paulo e os pagãos. Cheung lê o mesmo texto e encontra outra coisa. Paulo não negocia pressupostos nem pede espaço para o sistema grego. Também não oferece evidências para que o incrédulo, a partir de uma suposta neutralidade, julgue se Deus merece ser aceito. Paulo anuncia, acusa e ordena arrependimento; o livro é curto, anda rápido e serve como vacina contra um hábito que muitos cristãos aprenderam sem perceber: tratar o incrédulo como parceiro epistemológico legítimo e a Palavra de Deus como uma peça de evidência a ser submetida ao tribunal dele.

E aqui eu abriria um intervalo antes do próximo degrau. O leitor precisa trabalhar lógica formal com exercícios, e não basta ter um manual na estante ou ler uma introdução em dois fins de semana. Termo, definição, proposição, oposição entre proposições, silogismo categórico, tabelas de verdade, limites da indução e falácias precisam virar instrumento de uso, pois, sem isso, é perfeitamente possível concordar com Clark e Cheung apenas por simpatia.

Terceiro degrau: a doutrina da Escritura

Gordon H. Clark, O Martelo de Deus: a Bíblia e seus críticos

Só agora entramos numa bibliologia mais direta, e a ordem nos importa porque Clark não trata a Escritura primeiro como objeto de devoção, mas como questão epistemológica. O livro começa perguntando como se pode saber que a Bíblia é inspirada, passa pela Bíblia como verdade, pela inspiração verbal antiga e moderna, pela revelação especial como racional, pela religião revelada, pelo conceito de autoridade bíblica, pela teoria de Hamilton sobre linguagem e inspiração, pela pergunta sobre o que é verdade e, no fechamento, pela relação entre a fé reformada e a Confissão de Westminster.

O nervo do livro está no tratamento da verdade como propriedade de proposições, pois, se a verdade for reduzida a encontro, evento ou experiência, a inspiração verbal já perdeu o sentido antes mesmo de a discussão começar e a inerrância vira uma categoria mal formulada; Clark fecha esse problema. Por isso eu não colocaria este volume num degrau posterior, como se fosse mera bibliologia técnica, já que a questão textual vem depois da questão da verdade. E o capítulo sobre Westminster ainda faz um serviço adicional: lembra que fidelidade confessional não é repetir uma fórmula sem saber o que ela afirma.

Quarto degrau: o sistema

Vincent Cheung, Introdução à Teologia Sistemática

Cheung organiza sua introdução em seis capítulos, teologia, Escritura, Deus, homem, Cristo e salvação, e a disciplina de derivação aparece desde o começo. Ele trata da natureza, possibilidade e necessidade da teologia, passa pelos atributos da Escritura em oito seções sucessivas, chega à existência, aos atributos e às obras de Deus e termina na cadeia soteriológica dos eleitos, chamados, regenerados, convertidos, justificados, adotados, santificados e preservados.

Há um limite evidente, e vale dizê-lo antes que alguém obtenha o livro esperando outra coisa. A obra termina na salvação, sem uma eclesiologia desenvolvida, sacramentologia ou escatologia. Isso não diminui o que o livro faz, apenas define o que ele não pretende fazer, porque Cheung entrega sobretudo um modelo de encadeamento. O capítulo sobre a existência de Deus é especialmente importante porque ali se vê, funcionando dentro de uma sistemática, aquilo que os degraus anteriores prepararam: a doutrina de Deus sendo construída sem o apoio da teologia natural. Prefiro essa demonstração a muitos tratados que cobrem todos os loci e estragam o fundamento logo no início.

Robert L. Reymond, Teologia Sistemática

Reymond entra aqui por uma razão bastante específica: entre as sistemáticas extensas, é uma das que o escrituralista pode usar com menos reservas. O volume reúne as duas partes da obra num único tomo, e os cinco primeiros capítulos já mostram por que ele merece esta posição: revelação divina, natureza inspirada da Escritura, atributos da Escritura, natureza da verdade bíblica e a Bíblia como o ποῦ στῶ do conhecimento, o lugar onde os pés se firmam. Só depois aparecem doutrina de Deus, nomes e natureza divina, Trindade, inclusive nos credos, decreto eterno, criação, providência e a visão bíblica do homem.

Eu destacaria o capítulo quatro, no qual Reymond pergunta se as asserções da Escritura são univocamente ou analogicamente verdadeiras, enfrenta Tomás de Aquino, mostra que a analogia bem-sucedida depende de algum elemento unívoco e, a partir daí, volta-se contra a doutrina vantiliana do conhecimento analógico. A objeção é difícil de contornar: se o conhecimento humano verdadeiro nunca coincide com o conhecimento divino em ponto algum, em que sentido inteligível continua sendo conhecimento verdadeiro? Encontrar essa discussão no meio de uma sistemática de grande porte é raro, e isso muda o valor do livro inteiro.

Mas Reymond não deve ser lido sem marcações, porque, na providência, conserva o idioma confessional mais comum sobre causas e instrumentos. Quem sustenta causação divina imediata terá de reatribuir agência em vários trechos, lendo como ocasião aquilo que o texto apresenta como causa intermediária. Depois dos degraus anteriores isso é administrável; começar por Reymond e tentar fazer essa correção sem o fundamento estabelecido seria outra história.

Quinto degrau: a exegese e a história da revelação

João Calvino, Comentário à Epístola aos Romanos

Depois do sistema, voltamos ao texto, e Calvino já declara na epístola dedicatória a regra que pretende seguir: a lúcida brevidade é uma virtude peculiar do bom intérprete, e a tarefa do intérprete consiste em penetrar a mente do escritor que está expondo. Ele ainda confessa o próprio amor à brevidade, e o comentário inteiro tenta cumprir o que prometeu ao longo dos dezesseis capítulos de Romanos.

O ganho é doutrinário e também formal, porque justificação, imputação, escravidão ao pecado, eleição, endurecimento, remanescente e submissão às autoridades recebem ali um tratamento que marcou a tradição reformada inteira; mas vale prestar atenção ao modo como Calvino trabalha. Ele decide o sentido, apresenta a razão e segue, enquanto o leitor moderno, acostumado a comentários que gastam páginas preparando uma frase que poderia ser dita em um parágrafo, encontra uma disciplina que deveria constrangê-lo um pouco. Quem escreve exposição bíblica hoje faria bem em imitar alguma coisa dessa economia. Poucos imitam.

Geerhardus Vos, Teologia Bíblica

Vos muda o ângulo e, em vez de organizar as doutrinas por loci, acompanha a ordem em que a revelação foi dada. Primeiro define a natureza e o método da disciplina e separa revelação especial pré-redentora e redentora. Depois trata dos quatro princípios da revelação anterior à queda, da primeira revelação redentora e de suas três maldições, do período noaico, dos patriarcas, da eleição já operante em Abraão, Isaque e Jacó, do período mosaico, da profecia e, finalmente, do Novo Testamento.

Isso obriga o leitor a enxergar algo que uma sistemática pode esconder pela própria forma: Deus não entregou a doutrina em formato de manual pronto, mas comunicou a revelação historicamente, com cada etapa pressupondo o que veio antes e preparando aquilo que viria depois. Mas há uma cautela importante, porque o vocabulário orgânico de Vos, desenvolvimento, semente, crescimento, descreve a expansão da revelação comunicada, não uma evolução da verdade divina. A verdade não amadurece como se antes fosse menos verdadeira; o que cresce é a quantidade revelada e a clareza com que ela é dada. Sem essa distinção, alguém consegue usar Vos para alimentar o historicismo que ele próprio combateu.

Cornelis P. Venema, Cristo e a Teologia do Pacto

A estrutura pactual merece tratamento próprio, e Venema entra aqui, depois de Calvino e Vos, justamente porque o leitor já tem exegese e história da revelação suficientes para não transformar a discussão numa guerra de vocabulário acadêmico. O livro se divide em três partes. A primeira trata do pacto das obras em Westminster e da tese da reedição do pacto das obras na economia mosaica. A segunda passa pela relação entre pacto e eleição em Herman Bavinck, pela salvação dos filhos dos crentes que morrem na infância à luz do artigo 1.17 dos Cânones de Dort e pelo batismo dos filhos dos crentes. A terceira entra nas disputas contemporâneas, com três capítulos sobre a Visão Federal em suas relações com pacto, eleição e justificação, terminando com a leitura de N. T. Wright sobre Romanos 5.12-21.

Sexto degrau: a suficiência levada às últimas consequências

Vincent Cheung, Fulcro: expansionismo versus cessacionismo

Este é o livro que separa o escrituralista consistente do escrituralista de conveniência, porque Cheung abre com um manifesto do evangelho e, já no segundo capítulo, lança a tese que organizará o resto: a suficiência da Escritura é argumento contra o cessacionismo, nunca a favor dele. Depois vêm profecia, identidade entre a Palavra de Deus e a vontade de Deus, libertação da incredulidade, hipocrisia no aconselhamento cristão, mandato de cura congregacional, marcas de uma igreja verdadeira, indução aplicada ao estudo bíblico e uma sequência longa de confrontos com a posição cessacionista.

São quase cinquenta capítulos curtos, e o ponto mais forte do livro está numa inversão que parece simples depois que foi vista: o cessacionista diz que os dons cessaram porque a Escritura é suficiente, e Cheung responde que a Escritura suficiente é justamente a Escritura que prescreve os dons. Se ela basta, sua prescrição também basta, de modo que negar a prescrição apelando à suficiência equivale a usar a suficiência para negar aquilo que a própria Escritura suficiente ensina. O tom do livro é duro, e não há por que fingir que não é, pois Cheung trata o assunto como fidelidade ao evangelho, não como diferença simpática de ênfase entre grupos que chegaram a conclusões opostas e ainda assim estariam igualmente certos.

Sétimo degrau: a filosofia sob o axioma

Gordon H. Clark, Uma Visão Cristã dos Homens e do Mundo

Aqui o axioma sai da discussão epistemológica mais estreita e começa a legislar sobre campos particulares. Clark estabelece o propósito da obra, a unidade da verdade e o uso da lei da contradição, depois entra na filosofia da história com Marx, a doutrina do progresso, Spengler e Toynbee; passa à filosofia política, distinguindo política descritiva e normativa e discutindo governo, coerção e consentimento; trata de ética teleológica e ateleológica, egoísmo, utilitarismo e Kant, até chegar à ética da revelação; avança pela filosofia da ciência, com fatos, leis, verificação e modelo mecânico; e fecha passando pela filosofia da religião e pela filosofia do conhecimento, com ceticismo, relativismo, empirismo e apriorismo.

O livro é importante porque impede uma redução comum do escrituralismo: quem leu apenas as discussões sobre sensação, proposição e conhecimento pode imaginar que a filosofia de Clark termina aí, mas não termina. História, Estado, moral e método científico também precisam ser julgados a partir do axioma. E Clark tenta fazer isso por dedução, não por aquela aplicação elástica de “princípios cristãos” em que o autor chega à conclusão que já queria e depois procura um versículo que combine.

Gordon H. Clark, De Tales a Dewey

História da filosofia precisa ser lida, e o problema é lê-la como se estivéssemos visitando um museu no qual toda peça merece a mesma reverência só porque ficou velha; Clark não faz isso. Ele cobre o percurso dos milésios a Dewey expondo Parmênides e o sentido do verbo ser, a teoria protagórica do homem-medida e sua autodestruição, a resposta platônica e, depois, segue pela tradição inteira com o mesmo procedimento: reconstruir o sistema o suficiente para que ele seja reconhecido e então perguntar se ele se sustenta.

É por isso que eu prefiro este volume a um manual supostamente neutro, que produz com facilidade o sujeito capaz de resumir Kant sem saber dizer se Kant está certo. Clark trata cada filosofia como candidata a explicar a realidade, não como curiosidade histórica. Por isso De Tales a Dewey não é livro para ser “vencido” e abandonado; é livro de consulta, daqueles aos quais se volta quando um autor antigo reaparece com roupa nova numa discussão moderna.

Oitavo degrau: cultura, educação e futuro

R. J. Rushdoony, Esquizofrenia Intelectual

O diagnóstico cultural pode começar aqui, e Rushdoony passa pela escola e pela pessoa integral, pelo propósito do conhecimento, pela unidade do saber, pelo Reino de Deus e a escola, pelo Estado e a educação, pelo conceito de criança, pela Bíblia e a escola cristã, pelo misticismo das escolas públicas e pelo fim de uma era. Os apêndices ainda tratam de liberdade acadêmica, coerção e justiça bíblica.

A tese que costura tudo isso é a impossibilidade da neutralidade, porque toda educação já traz uma doutrina de homem, uma doutrina de conhecimento e alguma ideia de fim último. Quando a escola se anuncia neutra, não suspendeu essas doutrinas; apenas deixou de dizer de onde as tirou e em nome de que autoridade as impõe.

R. J. Rushdoony, A Filosofia do Currículo Cristão

O livro seguinte sai do diagnóstico e começa a mexer no currículo. Rushdoony distribui a obra em cinco partes e entra disciplina por disciplina: história contra ciência social, ensino da Bíblia, gramática, composição, matemática, educação cívica e constituição, ciências e método experimental, música e línguas estrangeiras. Depois vêm filosofia da disciplina, aluno problemático, humanismo em sala de aula, relação entre teologia e pedagogia e a neutralidade impossível, com o humanismo apresentado no fim como religião estabelecida pelas escolas estatais.

Aqui o leitor que dirige escola, ensina ou educa os filhos em casa encontra muita coisa para fazer, e essa é a diferença entre uma crítica cristã da educação secular e a velha queixa conservadora sobre a decadência: uma reclama; a outra precisa desenvolver um currículo, escolher o conteúdo, disciplinar os hábitos e ensinar tudo isso.

R. J. Rushdoony, O Plano de Deus para a Vitória

Este volume é curto e trata de escatologia em sete capítulos: perspectivas milenaristas, vitalidade da fé cristã, áreas de reconstrução, relação entre escatologia e trabalho, economia e escatologia, crítica da geração educada pela expectativa do arrebatamento e conexão entre predestinação e lei. A tese pós-milenarista aparece sempre pelo lado prático. O que um cristão espera da história muda a disposição que ele tem para construir algo que precise durar além de sua própria vida.

Os três livros de Rushdoony devem ser usados com a mesma regra: eu o tomo como testemunha de diagnóstico, não como fundamento epistemológico. Suas descrições da falência humanista são frequentemente excelentes e, em certos temas, difíceis de substituir. O aparato apologético, porém, não tem o rigor de Clark, de modo que se recebe o diagnóstico e se recusa qualquer apelo residual a uma evidência autônoma quando ele aparece; autor útil continua sendo autor julgável.

Nono degrau: o adversário mapeado

Kenneth Boa e Robert M. Bowman Jr., Manual de Apologética

O último degrau serve para conhecer o campo inteiro sem passar anos montando sozinho um mapa básico, e Boa e Bowman organizam a apologética em quatro sistemas, clássico, evidencialista, reformado e fideísta, e apresentam cada um com raízes históricas, modo de operação, exemplo aplicado, pontos fortes e possíveis fraquezas. Warfield, Lewis, Geisler, Kreeft e Craig aparecem no primeiro grupo; a seção reformada dá atenção considerável a Van Til e Clark e reúne material bibliográfico útil.

Mas eu não recomendaria o livro sem colocar uma advertência grande na capa, porque a proposta é integrativa: os autores tratam os quatro sistemas como perspectivas capazes de se complementar e sugerem que a escolha do método pode depender do interlocutor e do temperamento do apologista. Isso é falso. Método apologético decorre de epistemologia, e epistemologias contraditórias não viram amigas porque o apologista decidiu ser pastoral; um homem não começa ao mesmo tempo pela sensação e pela revelação, e, se tenta fazer isso, uma das duas acaba funcionando apenas como ornamento para agradar quem estiver ouvindo.

Então por que o livro continua aqui? Porque, como inventário, ele presta serviço ao reunir num volume aquilo que os próprios adversários dizem de seus métodos, oferecer fontes, organizar a discussão e poupar leitura dispersa. Eu o usaria como catálogo do campo; como manual de formação, pode deformar o iniciante antes que ele perceba qual concessão já fez.

Como usar a lista

Os degraus são cumulativos, e eu não coloquei nove por gosto de simetria, porque a ordem não é decoração. Ainda assim, se alguém quiser uma redução mínima, eu ficaria com quatro títulos: Questões Últimas, Três Tipos de Filosofia Religiosa, Introdução à Teologia Sistemática e o comentário de Calvino a Romanos. Em paralelo, um manual de lógica precisa ser trabalhado com exercícios, não apenas lido, para tal eu indico o meu livro Lógica para os Cristãos, disponível de graça para download no site.

Esse conjunto já força o leitor a responder como sabe o que sabe, a enxergar um sistema em vez de colecionar frases, a refutar alternativas pelo interior delas e a voltar ao texto bíblico com disciplina. Só isso já o coloca acima de muita formação que hoje se vende como “cosmovisão cristã” em oito aulas gravadas e, infelizmente, acima de uma quantidade considerável de púlpitos que carregam o adjetivo reformado sem carregar o método que deveria acompanhá-lo.

O restante da biblioteca existe para outra etapa, porque não basta estar seguro do próprio fundamento; quem pretende escrever, ensinar ou governar instituições precisa conhecer exegese, história da revelação, filosofia, educação, cultura e os métodos rivais que encontrará pela frente. Nenhum livro desta lista é neutro, e nenhum deve ser lido com a passividade que a escola o treinou durante anos; nem mesmo os autores mais próximos da posição que sustento aqui recebem imunidade, porque autor útil e autor infalível continuam sendo categorias diferentes. A Escritura julga os livros.

Afirmamos e negamos (estou achando útil fazer esse tipo de conclusão em alguns textos)

Afirmamos que a ordem de leitura em filosofia e teologia cristã deve seguir a ordem de dependência lógica entre as questões, e que a epistemologia governa toda a sequência posterior.

Afirmamos que a Escritura é o axioma indemonstrável do qual todo conhecimento se deriva, e que qualquer livro desta lista vale exatamente na medida em que sustenta essa posição ou fornece material verificável a quem a sustenta.

Afirmamos que declarar os limites de uma obra recomendada faz parte da recomendação, e que o silêncio sobre limites transfere ao leitor o custo do erro de quem indicou.

Negamos que a leitura teológica possa começar pelos tópicos de conteúdo antes de resolver a questão do fundamento, e negamos que o adiamento dessa questão a deixe em aberto, pois o adiamento já é uma resposta tomada de empréstimo.

Negamos que os métodos apologéticos rivais se complementem, e negamos que a escolha entre eles seja matéria de temperamento pastoral ou de conveniência missionária.

Negamos que a erudição acumulada sem sistema constitua maturidade doutrinária, e negamos que a quantidade de volumes lidos meça qualquer coisa relevante enquanto o primeiro degrau permanecer vazio.