Destrói-os na tua verdade — Salmo 54:5

Reflexões · Autobriografia

Inteligência Natural e Artificial

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Toda acusação carrega uma teoria implícita a respeito daquilo que acusa, e a teoria costuma ser mais reveladora do que a acusação em si. Quando alguém lê um texto direto, ordenado por tópicos, econômico no ornamento e disciplinado na sequência dedutiva, e conclui daí que o texto foi produzido por uma máquina, está afirmando, sem perceber que afirma, que a escrita humana séria seria naturalmente enfeitada, irregular e emocionalmente colorida, de modo que a ausência desses elementos denunciaria ausência de autor. A tese é falsa, e sua falsidade pode ser demonstrada sem nenhuma sofisticação: basta abrir qualquer volume de teologia sistemática, qualquer tratado de lógica, qualquer polêmica doutrinária dos últimos quatro séculos, e verificar que a forma acusada de mecânica é justamente a forma que a disciplina impôs a quem quis argumentar sob pressão de adversário.

Escrevo isto porque a acusação me alcançou, e porque ela alcança hoje qualquer autor que escreva com ordem. Antes de responder ao mérito, contudo, é necessário estabelecer o histórico, porque a acusação depende inteiramente de uma cronologia, e a cronologia está do meu lado.

O apetite que veio junto com a fé

Fui convertido por Deus no final de 2013, e desde aquele instante recebi um benefício que jamais havia pedido e que sequer sabia existir, a saber, o vício em leitura. Até então eu não possuía o menor interesse por livros; nenhum, em nenhum gênero, em nenhuma circunstância. A conversão instalou em mim, de modo imediato e absolutamente desproporcional àquilo que eu era, um apetite que começou pela Bíblia, que passei a ler sem programa, sem método e sem qualquer orientação externa, e que logo se estendeu a livros cristãos de todo tipo, comprados, emprestados ou encontrados por acaso.

Nos quatro primeiros meses li a Bíblia inteira e vários outros livros. Prossegui na leitura bíblica desde então, sem interrupção real, e os dias de exceção, ao longo de todos esses anos e sob circunstâncias específicas, não chegam às dezenas. Quem quiser explicar o fenômeno por reorganização psicológica, entusiasmo de neófito ou qualquer outra hipótese naturalista está livre para tentar, embora deva explicar também por que o entusiasmo não decaiu, e por que aquilo que costuma durar meses já dura doze anos; registro apenas o fato bruto, que é o seguinte: o apetite veio junto com a fé, e não antes dela, e permaneceu quando o entusiasmo inicial passou.

As apostilas impressas

Guardo com clareza um episódio de 2014, ocorrido por volta de maio ou junho, quando encontrei apostilas de teologia, imprimi o material inteiro e comecei a estudá-lo com a seriedade que a matéria pedia e que ninguém havia me ensinado a ter. Havia ali história da igreja, doutrina organizada por locus e o conteúdo comum de um curso introdutório, dividido entre teologia histórica e teologia sistemática, e foi a primeira vez que me coloquei diante de teologia propriamente dita, e não diante de devocional disfarçado de estudo. No começo da caminhada eu já havia lido C. S. Lewis, que cumpre bem o papel de porta de entrada e cumpre mal qualquer papel posterior; foi naquele mesmo período que apareceram diante de mim textos de Martinho Lutero e de João Calvino, e com eles o calvinismo, entre meados e o final de 2014.

A doutrina nomeou aquilo que já havia acontecido comigo

O calvinismo me convenceu por razão biográfica antes de me convencer por razão exegética, e faço questão de estabelecer a ordem, porque ela explica a firmeza posterior. Minha conversão me alcançou querendo viver para o mundo e frequentando igreja por obrigação imposta pelos meus pais, de sorte que a mudança ocorreu inteiramente dentro de um não querer, contra a direção da minha vontade e sem qualquer colaboração daquilo que eu então desejava. Deus me colocou em posição calvinista no próprio instante da conversão, sem que eu precisasse ver argumento algum; os argumentos vieram depois, e apenas corroboraram aquilo que eu havia experimentado, mostrando que a experiência possuía fundamento bíblico e que a doutrina simplesmente nomeava com precisão técnica um acontecimento que eu já conhecia por dentro.

Em 2015 continuei estudando com a mesma intensidade, e desde 2014 já participava de debates na internet, sobretudo no Facebook, onde permaneci sem interrupção, aumentando o volume ano após ano em vez de reduzi-lo.

O curso, o aparelho e a expansão

Ainda em 2015 vi as primeiras publicações de Olavo de Carvalho, e em 2016 baixei por torrent o curso dele, que foi o primeiro ambiente intelectual no qual estudei porque era necessário estudar, e não porque o assunto me agradasse ou porque eu já possuísse a competência exigida. Comprei um Kindle logo em seguida, e a partir daquele ponto a leitura de livros pirateados ampliou tudo de maneira monstruosa, não apenas pela quantidade, que subiu a dezenas e mais dezenas de volumes, mas pela possibilidade decisiva de anotar simultaneamente no aparelho e transferir para o computador, o que transformou leitura em acúmulo aproveitável.

Nunca mais parei. Li sobre formação intelectual, sobre o ofício da escrita e sobre autoeducação, e li literatura em quantidade considerável, justamente porque Olavo apontava a literatura como indispensável à formação de quem pretende pensar com alguma amplitude (leitura esta que se manteve até 2023). Reafirmei esses estudos muitas vezes, aprofundei continuamente a teologia e desci à filosofia com Platão, com Aristóteles, com Tomás de Aquino e com os pais da igreja, tendo priorizado Agostinho, entre outras razões porque os protestantes o priorizavam e porque a herança agostiniana explica boa parte daquilo que a Reforma afirmou depois. Tudo isso ocorria lateralmente ao trabalho, ao estudo formal e a uma atuação firme na igreja local, já numa igreja histórica, e não mais naquela em que nasci, de feição pentecostal dos anos oitenta.

Eu sempre tive o benefício de serviços home office e bem fáceis, me deixando livre de 4 até 12 horas por dia, que muitas vezes eram inteiramente utilizadas entre leituras, anotações e meditações.

O escrituralismo, e a razão pela qual ele venceu

Foi nesse percurso que encontrei o escrituralismo, e ele se mostrou a melhor solução filosófica e teológica disponível para explicar a realidade inteira, sem deixar resíduo epistemológico e sem depender de nenhum princípio importado de fora. A razão da superioridade precisa ser enunciada com exatidão, porque quase todo comentador erra neste ponto exato: o escrituralismo não vale por ser alguma coisa em si mesmo, nem por constituir escola, tradição ou partido dentro do protestantismo; ele vale porque aponta para o Deus das Escrituras, e porque se recusa a instalar qualquer outro princípio acima daquilo que Deus disse, de modo que sua força é inteiramente derivada e sua pretensão é inteiramente subordinada. Os estudos se intensificaram nessa direção, e a intensificação nunca cessou.

Em paralelo, a história da filosofia já havia passado por mim várias vezes, em diferentes níveis de profundidade e com diferentes propósitos. Houve um período em que priorizei a leitura de Karl Marx e de outros intelectuais de esquerda, porque eu não poderia me dar ao luxo de refutar baseado em opinião; houve outro em que li os iluministas, e depois os estoicos. Li grande parte da literatura ocidental que importa e me detive também em alguma coisa oriental. Firmei-me sobretudo numa teologia sistemática robusta, de perspectiva integralmente reformada, e encontrei em Jonathan Edwards boa filosofia e boa análise teológica, muito próximas do ocasionalismo que eu adotaria depois e que constitui consequência lógica e necessária do escrituralismo, uma vez que quem afirma Deus como causa imediata de todas as coisas não tem por onde preservar causas segundas sem quebrar o próprio sistema.

Sim, eu estou resumindo numa bagunça proposital, porque a diversidade é ampla, na mesma proporção que a profundidade com que me dediquei.

Doze anos escrevendo em público

A biografia acima existe para sustentar um dado, e o dado é o seguinte: escrevo publicamente desde 2014.

Comecei em comentários de Facebook, numa época em que nós priorizávamos comentários robustos, construídos para derrubar cada ponto do adversário na ordem em que ele havia sido apresentado, sem concessão retórica e sem economia de fôlego. Parei em 2019, e a parada foi apenas de plataforma, porque jamais deixei de escrever; apaguei as redes e passei a escrever para a igreja local, tentei alguns blogs, nunca suportei a estética deles e desanimei rápido. Retornei em 2022, com canal no YouTube, com textos e com livro publicado; montei o site por volta de 2025, depois o reformulei, encontrei o Substack e passei a escrever ali com regularidade.

A forma que o debate impõe

A inteligência artificial é um facilitador, e não compreendo o fetiche de convertê-la em problema moral; a insistência nesse fetiche demonstra sobretudo a incapacidade de leitura de quem acusa, e demonstrarei a afirmação em vez de apenas proferi-la.

Vincent Cheung sempre escreveu do modo como a inteligência artificial escreve, e a comparação retrospectiva chegou a virar piada entre nós escrituralistas, ainda que a piada esconda um argumento sério. De tanto escrever diretamente, e de tanto ter de pensar em lógica em vez de pensar em firula, o texto assume uma forma reconhecível, que não decorre de preguiça nem de pobreza vocabular, mas da função que ele precisa cumprir. O debate no Facebook ocorria em velocidade alta, e no Substack procuro manter velocidade semelhante, de modo que o regime exige escrever exatamente aquilo que se propôs escrever, com no máximo uma colocação aqui e ali, geralmente sob forma de provocação. A beleza fica de fora dessa operação, e escrever belamente jamais foi dom dos escrituralistas, nem promessa que a escola tenha feito a alguém. Somos péssimos nessa empreitada estética.

Essa forma sempre esteve nos meus textos e nos textos de vários outros autores que trabalham sob a mesma pressão. Por isso, quando os modelos de linguagem se tornaram públicos, pessoas que liam meus textos antes começaram a dizer que meus textos eram produzidos por eles, e a insanidade dificilmente encontraria caminho para ir mais longe do que esse. Antes de a inteligência artificial existir, eu já escrevia assim; já usava tópicos, já numerava pontos, já sintetizava ao máximo cada ideia para reduzir a margem de interpretação, diminuir a enrolação e liberar espaço para escrever mais, porque quanto mais eu me detinha ao tema, melhor o resultado, em toda e qualquer situação.

Com quem a máquina aprendeu

Convém inverter a pergunta e dirigi-la a quem acusa, já que ninguém parece disposto a formulá-la: se a máquina escreve desse jeito, onde ela teria aprendido a escrever desse jeito, e com quem? Ela não inventou a ordenação por tópicos, não inventou a sequência dedutiva, não inventou o parágrafo que abre por definição e fecha por consequência, e não inventou a economia de ornamento; ela absorveu tudo isso de textos humanos, escritos por gente que fazia exatamente aquilo que hoje se denuncia como sinal de artificialidade.

Aqui não disponho de argumento demonstrativo, e apresento conjectura declarada como conjectura: suponho que ela escreva assim porque escreve como quem não está preocupado com estilo, e porque foi formada para não estar. Suponho ainda que exista, em alguma versão gigantesca reservada a super-ricos, capacidade de escrever lindamente, capaz de imitar Dostoiévski sem esforço, ou de alcançar Olavo, que considero um dos maiores escritores de língua portuguesa, não pelo conteúdo, mas pela estilística. Uma inteligência artificial de riquíssimos talvez escreva monstruosamente bem; a minha corrige ortografia. Claro, suponho, mas se não há ainda uma LLM que assim o faça, deverá existir futuramente, mas este não é o foco.

Declaração do que eu faço

Não tenho o menor problema em assumir aquilo que já fiz e continuo fazendo, e prefiro declarar de novo antes que alguém julgue ter descoberto.

Uso inteligência artificial para verificar erros ortográficos. A auditoria de conteúdo ocorre antes, quando o texto já está escrito por mim mesmo e eu o estou avaliando; passo o material pela ferramenta e retorno a mim para auditar o resultado final, de modo que a última leitura é sempre minha e o julgamento sobre cada frase permanece meu. Nisso não existe problema algum, porque o texto continua sendo meu em tudo que importa; ele foi corrigido ortograficamente, e nada além disso. Este texto que você lê agora passou pelo mesmo procedimento, e digo isso no corpo do artigo justamente para que ninguém precise investigar aquilo que eu declaro de graça.

Quanto às marcas de estilo que hoje servem de prova acusatória, cabe uma nota de língua, e não de tecnologia. Sempre usei exemplos triplos, hábito que pertence ao português e a muitos autores antes de mim, e que se explica por uma percepção antiga segundo a qual três exemplos seguidos, com o último introduzido por conectivo, produzem no leitor a sensação de quantidade grande; às vezes a lista aumenta, quando o texto comporta o aumento, e às vezes permanece em três. A repetição processual de construções paralelas, indicando coisas distintas por meio do mesmo verbo ou da mesma forma sintática, também jamais foi problema para ninguém antes de anteontem. Esses recursos existem em português muito antes de qualquer modelo de linguagem, e a máquina os copia descaradamente, sem beleza, como eu sempre escrevi e como diversos autores sempre escreveram, porque na filosofia e na teologia isso ocorre há muitíssimo tempo.

O conteúdo nunca foi da máquina, assim como os livros lidos nunca foram dela, e eu jamais poderia agir de outro modo, porque seria pecado diante da minha religião, e talvez tenham reparado que levo minha religião a sério; se não levasse, faria qualquer outra baboseira e ganharia consideravelmente mais dinheiro com ela, ou pelo menos mais debates. Não estou aqui para mentir a ninguém. Fiz correção ortográfica com inteligência artificial desde que ela se tornou adequada para a tarefa, e agradeço a Deus por isso, porque o trabalho anterior era enorme; escrevo muito, e a correção ortográfica sempre foi a parte que mais me custou tempo.

Em síntese, eu só não escrevo com beleza.

A caixa de notas

As citações eu carrego de memória em quantidade razoável, e disponho de muito mais em arquivo porque adotei o Zettelkasten, o sistema de caixa de notas de Niklas Luhmann. Minhas notas são prolíficas, formam-se com rapidez e em grande volume, e nascem já conectadas umas às outras, o que produz um efeito que nenhuma ferramenta de geração substitui: posso estar lendo hoje sobre a alma em Aristóteles e amanhã conectar aquilo a um texto de Karl Barth, sem busca, sem esforço e sem que a conexão precise ser inventada no momento da escrita, porque ela já existia no sistema antes de o artigo começar.

É esse arquivo, construído durante doze anos de leitura contínua, que sustenta a densidade que incomoda. Quem confunde o efeito do arquivo com o efeito da máquina não conhece nenhum dos dois.

O que a acusação revela

Quem acusa um texto de origem maquinal porque ele é direto, ordenado, dedutivo e limpo de ornamento confessa duas coisas simultaneamente, e ambas são graves. Confessa, primeiro, que nunca leu teologia séria, porque teria reconhecido de imediato a forma, que é anterior à internet, anterior ao computador e anterior a qualquer coisa que se pareça com inteligência artificial. Confessa, segundo, que julga textos por temperatura estética em vez de julgá-los por validade, o que significa dizer que jamais adquiriu instrumento algum para avaliar um argumento e precisa avaliar o autor, já que não consegue avaliar a proposição. Eu mesmo não ligo em nada de refutar um texto de máquina, encontro até mais facilidade para efetuar tal exercício.

O critério de um texto é a verdade daquilo que ele afirma e a solidez da dedução que o sustenta; a estética entra depois, quando entra, e permanece subordinada. Os textos de 2014 se perderam com as contas que apaguei, mas tudo o que produzi de 2022 em diante está publicado, datado e disponível a qualquer um que se disponha a ler na ordem. Se encontrar contradição, aponte; se encontrar erro doutrinário, refute; se encontrar dedução inválida, exponha a falha e mostre onde a conclusão excede as premissas. Qualquer uma dessas três coisas me obrigaria a responder, e eu responderia com prazer, porque é para isso que escrevo.

A pergunta sobre quem digitou é a única que não me obriga a nada, porque não toca em nada. Deus falou, o argumento está posto, e argumento não muda de valor conforme o corretor ortográfico que passou por ele. Desculpe, mas a sua vaidade não me afeta.