Publicação em série
Katu-monhang I
A garoa vinha tão fina que quase não caía; ficava no ar entre as torres, prendia-se aos cabos elétricos, às grades das passarelas e às placas de publicidade que cobriam as fachadas, e só depois de algum tempo, quando já havia molhado o cabelo e escurecido os ombros do casaco, é que alguém percebia estar debaixo de chuva.
O homem caminhava sem capuz, como quem se acostumara a ser molhado sem admitir que chovia; devia ter passado dos cinquenta, talvez por pouco, e trazia o rosto ainda limpo daquele tipo de intervenção que em Katu-monhang começava cedo: nada brilhava sob a pele, nenhuma linha azul acompanhava a têmpora, nenhum círculo metálico fechava a íris; usava óculos de lentes grossas, desses que uma máquina de rua prometia substituir em sete minutos por um implante ocular de segunda geração. Passou diante de uma dessas máquinas. Nem sequer olhou.
Descia pela Avenida dos Bandeirantes do Céu, uma via construída sobre outra via que havia sido construída sobre uma terceira, e nenhuma das três parecia ter sido planejada para suportar o peso das demais. Acima dele corriam os trens suspensos, silenciosos apenas quando estavam longe; de perto, faziam vibrar os pilares e sacudiam a água acumulada nas calhas, que descia em golpes repentinos sobre os vendedores protegidos por lonas. Abaixo, onde ainda existia asfalto, ônibus articulados passavam espirrando água escura nas calçadas estreitas; mais abaixo ainda, em túneis que o pedestre não via, levavam mercadoria, lixo, corpos, equipamentos e tudo que a cidade preferia movimentar sem interromper o trânsito dos vivos.
Katu-monhang tinha aprendido a crescer para cima porque há muito não sabia crescer para os lados. Os prédios antigos permaneciam de pé, não por conservação, mas porque serviam de fundação para os novos; um edifício de vinte andares sustentava outro de quarenta, preso por colunas externas, e sobre os dois alguém havia levantado mercados, estacionamentos de drones, templos, clínicas, casas de aposta, cozinhas e dormitórios que se empilhavam até desaparecer na neblina da noite. De alguns pontos era impossível saber onde terminava um prédio e começava o seguinte. Passarelas os uniam em diferentes alturas, escadas metálicas apareciam entre duas janelas, elevadores externos corriam por trilhos improvisados; nas estruturas mais baixas, pequenas casas de alvenaria tinham sido encaixadas entre tubulações como quem ocupa o espaço debaixo de uma escada.
Andava sem pressa, apesar da gente que o ultrapassava. Um entregador passou quase correndo, com uma caixa térmica presa às costas e duas pequenas próteses mecânicas reforçando as pernas; logo depois veio uma moça de uniforme cinza, falando com alguém que só ela podia ouvir, e um grupo de rapazes atravessou a rua antes que o sinal abrisse, desviando dos automóveis autônomos com a segurança de quem confiava mais no próprio costume do que no sistema de frenagem das máquinas. O homem afastou-se um pouco para dar passagem a uma senhora que empurrava um carrinho de feira, o mesmo modelo de metal que se usava havia talvez cem anos, mas com uma bateria presa por fita isolante para ajudar nas subidas. Ela carregava mandioca, duas pencas de banana, cabos pirateados e uma gaiola coberta por pano.
Aquilo lhe parecia mais verdadeiro que quase todo o resto, embora não soubesse explicar a razão e talvez nem tentasse: tinha a impressão de que os objetos velhos aceitavam melhor aquilo que eram, pois um carrinho continuava sendo um carrinho, a alça machucava a mão, a roda entortava e a ferrugem aparecia quando devia aparecer. As coisas novas vinham sempre acompanhadas de uma promessa sobre outra coisa: uma janela era anunciada como superfície de integração, o relógio administrava a saúde, o dinheiro, os encontros e a obediência ao trabalho, e até o banco de praça, quando havia algum, media quanto tempo alguém permanecia sentado. Pensou nisso por alguns passos e depois esqueceu, ou fez o que costumava fazer com pensamentos que ameaçavam se tornar discursos: deixou que morressem antes de ficarem interessantes demais.
Na esquina seguinte havia um boteco estreito sob uma farmácia genética. A porta permanecia aberta e um homem fritava pastel junto da calçada, protegido por uma cobertura de plástico transparente onde a garoa juntava pequenas gotas. O óleo estalava; o cheiro de massa, carne e pimenta conseguiu vencer por alguns metros o odor de fiação molhada e esgoto que subia das galerias. Acima do balcão, uma televisão velha mostrava um jogo de futebol com alguns segundos de atraso em relação ao holograma projetado no prédio em frente, e a diferença criava uma coisa curiosa: primeiro vinham os gritos dos apartamentos, depois o jogador chutava na televisão, e só então a propaganda no alto da avenida registrava o lance e oferecia apostas para o próximo minuto.
Diminuiu o passo porque gostava de pastel, embora não tivesse fome, e olhou para o tacho, para o pano de prato jogado no ombro do vendedor, para os copos de vidro virados sobre uma bandeja de alumínio; havia no balcão uma garrafa térmica vermelha, riscada e velha, e ele pensou em entrar apenas por causa dela, mas continuou caminhando, passou por uma banca onde se vendiam capas para implantes, escapulários digitais, carregadores universais, chaveiros de times extintos e pequenos santos impressos em resina, e desceu uma escadaria que levava ao nível inferior do bairro.
Ali a cidade começou a mudar; as telas ainda existiam, mas eram menores, rachadas ou antigas, e os anúncios já não reconheciam cada pessoa, repetindo para todos a mesma mensagem sobre empréstimos, apostas, cursos de capacitação rápida e próteses financiadas em sessenta meses. Os drones da prefeitura apareciam menos e, em compensação, havia fios por toda parte, descendo das fachadas, cruzando janelas, passando de um poste a outro e desaparecendo dentro de caixas plásticas sem tampa, como se cada morador tivesse acrescentado sua própria linha ao desenho incompleto do bairro; alguns carregavam eletricidade, outros dados, outros ninguém sabia. A rede oficial dizia que aquele emaranhado era perigoso e talvez fosse. Continuava funcionando.
Pegou uma rua estreita que acompanhava o curso enterrado de um rio. Em certos pontos a água voltava à superfície por grades abertas no chão, preta e rápida, carregando sacolas, espuma e folhas. O nome antigo do rio permanecia escrito em azulejos numa parede: Anhangabaú-Mirim. Alguém havia pintado por cima uma palavra que a chuva tornara ilegível. Mais adiante, uma capela espremida entre duas oficinas mantinha as portas abertas; possuía uma cruz de madeira sem luz, sem projeção, sem alto-falante, e isso fez com que ele a observasse por mais tempo do que observava as coisas luminosas. Também não entrou.
O bairro central ficava para trás, embora as torres continuassem acima dele. Era esse um dos enganos de Katu-monhang: ninguém realmente saía do centro, porque o centro ocupava o céu inteiro. O que mudava era a altura em que se vivia. Nas zonas ricas, passarelas fechadas mantinham as pessoas a cem, duzentos metros do chão, ligando apartamentos a escritórios, escolas e estações sem necessidade de tocar a rua; nas zonas médias ainda havia elevadores públicos e escadas rolantes; na periferia vertical, cada um aprendia a subir por onde desse.
Caminhou por quase quarenta minutos até alcançar o setor conhecido como Jaraguá de Baixo, embora não houvesse Jaraguá algum por perto, e muito menos algo que pudesse ser chamado de baixo. Ali os edifícios se apertavam ao redor de uma antiga linha de metrô, desativada depois que uma enchente abrira parte do túnel e ninguém achara economicamente necessário reconstruí-lo. A cobertura dos trilhos virara feira, e barracas ocupavam a extensão das plataformas, vendendo arroz, peças de computador, peixe salgado, remédio vencido, roupa, cachaça clandestina, banana, cartuchos de memória, ferramentas e livros. Poucos livros. Ainda assim ele parou diante deles.
Eram amontoados sem ordem sobre uma lona azul, alguns com páginas inchadas pela umidade, outros encapados com plástico. Reconheceu uma edição escolar de Machado, um catecismo católico, dois manuais de eletrônica do começo do século, um volume mutilado de sermões, um romance policial sem capa e uma gramática latina que alguém devia ter comprado muitos anos antes com intenções melhores do que o uso que lhe deu. Passou o dedo pela lombada desta última e viu a sujeira ficar na ponta do indicador; quase perguntou o preço, como quem arruma uma desculpa para levar para casa aquilo de que não precisa, mas já tinha uma gramática semelhante em casa, talvez duas, e deixou a mão cair antes de seguir.
Do outro lado da feira uma escola funcionava no terceiro andar de uma garagem; crianças de uniforme azul desciam por uma escada externa enquanto as mães esperavam sob guarda-chuvas, e algumas tinham de disputar espaço com motocicletas que passavam devagar entre as pessoas. Um menino vinha com um caderno apertado contra o peito, não olhando para nada porque tentava evitar as poças; outra criança carregava no pulso um aparelho que projetava exercícios de leitura diretamente sobre o antebraço, mas usava o dedo da outra mão para acompanhar as letras como se lesse num papel. O homem percebeu aquilo e sorriu apenas o suficiente para que ninguém notasse, porque o dedo da criança avançava pelas palavras projetadas como avançaria sobre uma página de papel.
Não desgostava da cidade, conclusão a que chegava muitas vezes e que sempre o surpreendia, porque havia coisas nela que lhe causavam repulsa, outras que o cansavam e algumas que preferia não compreender; mesmo assim, quando imaginava viver num lugar menor, ordenado, silencioso, onde cada fio estivesse dentro da parede e cada pessoa fosse levada sem atrito de um ponto a outro, alguma coisa lhe faltava. Talvez fosse fraqueza, ou talvez o homem precisasse de certa porção de desordem para lembrar que morava entre homens e não dentro de uma máquina; não sabia, e a garoa começava a engrossar, de modo que lhe pareceu melhor pensar no caminho.
Virou à esquerda depois de um açougue automatizado que fechara havia anos e entrou numa passagem coberta. A iluminação vinha de tubos de LED instalados de qualquer maneira no teto, alguns brancos, outros azulados; quando falhavam, os moradores substituíam o trecho por aquilo que encontrassem, e por isso o corredor mudava de cor a cada vinte metros. Passou por uma oficina de próteses onde três braços mecânicos pendiam do teto como ferramentas, por uma pequena igreja pentecostal que ainda realizava culto com caixas de som grandes demais para o salão, por um salão de beleza, por duas portas sem identificação e por um mercadinho cujo dono havia construído um balcão ao redor de um pilar estrutural. Comprou um pacote de café e pagou com uma cédula; o rapaz do caixa examinou o dinheiro contra a luz e aceitou sem dizer nada.
Era outra das manias dele, talvez a mais inútil, carregar dinheiro de papel sempre que podia, não por medo de rastreamento nem por alguma teoria que pudesse expor em voz alta, mas porque gostava do gesto completo de entregar, esperar, receber o troco e guardar. Havia começo e fim. Nas compras digitais, o pagamento desaparecia antes que a pessoa percebesse ter pago, reduzido a uma vibração curta no pulso e a um número menor em algum lugar; pegou as notas de troco, dobrou-as, guardou-as na carteira e colocou o café debaixo do braço.
Quando saiu da passagem coberta, já estava diante do edifício.
Chamava-se Residencial Parque das Araucárias, embora não houvesse parque nem araucárias. O nome permanecia numa placa de bronze presa ao concreto, herança de quando os primeiros trinta andares tinham sido construídos, ainda no século anterior; depois vieram mais vinte, mais tarde dezessete módulos residenciais presos às laterais, uma ampliação irregular no terraço, antenas, reservatórios, pequenas casas técnicas, duas passarelas ligando o prédio aos vizinhos e, por fim, um conjunto de apartamentos pré-fabricados instalado onde antes ficava a garagem aérea. Ninguém sabia ao certo quantos andares o edifício possuía porque os números dos elevadores não coincidiam com os níveis externos.
Para quem morava ali, isso não fazia diferença, e ele entrou pelo térreo antigo, onde o piso de granilite cinza estava gasto no meio e a portaria havia sido substituída por uma cabine automática que raramente reconhecia os moradores mais velhos. Encostou o polegar no leitor e nada aconteceu; tentou outra vez, viu a luz ficar vermelha e, na terceira vez, a porta abriu, não porque o sistema o reconhecera, mas porque uma vizinha saía carregando duas sacolas e segurou a folha de vidro com o pé. Ele agradeceu com a cabeça, entrou e foi até os elevadores.
Dois estavam parados, um terceiro exibia a mensagem MANUTENÇÃO PREVENTIVA havia quase oito meses e o quarto funcionava somente até o quadragésimo segundo andar. Era suficiente.
Esperou ao lado de um homem adormecido numa cadeira de plástico, provavelmente o zelador do turno da noite. A água escorria do casaco e formava no chão uma pequena mancha escura. Tirou os óculos, limpou as lentes com a ponta da camisa e tornou a colocá-los. Quando a porta abriu, entrou sozinho, e o elevador começou a subir com pequenos solavancos. No décimo segundo andar entrou uma mulher com três caixas de comida congelada; no vigésimo primeiro, dois adolescentes desceram deixando cheiro de cigarro doce; no trigésimo sexto, faltou energia por dois segundos e a cabine ficou imóvel, silenciosa, antes que as lâmpadas de emergência acendessem, sem que ninguém parecesse se preocupar.
Ao chegar ao quadragésimo segundo, saiu e continuou por uma escada que dava acesso ao bloco superior, subindo devagar porque não estava cansado a ponto de parar, mas também já não tinha idade para fingir que quarenta lances adicionais eram uma coisa sem importância. Tirou o pacote de café debaixo do braço, passou-o para a mão direita e segurou o corrimão com a esquerda.
Entre um andar e outro havia janelas estreitas voltadas para a cidade; por elas via as torres atravessadas por passarelas, antenas surgindo na garoa e, muito abaixo, os reflexos das placas no asfalto. A certa altura um drone policial passou próximo da janela e iluminou a escada por um instante; ele continuou subindo, como quem atravessava dentro do próprio prédio mais um pedaço de rua.
Morava no quinquagésimo oitavo, ou no que o condomínio chamava de quinquagésimo oitavo. O corredor daquele andar era curto, com cinco apartamentos e uma lâmpada que piscava perto do elevador desativado. Havia vasos de samambaia diante da porta de uma vizinha, um carrinho infantil encostado na parede e um pequeno altar doméstico dentro de uma caixa transparente. Chegou à última porta, procurou as chaves no bolso e entrou.
O apartamento tinha três cômodos pequenos e nenhum deles parecia pertencer à cidade que ficara do lado de fora.
Acendeu a luz da sala, e uma lâmpada incandescente, amarelada, demorou uma fração de segundo para firmar o brilho dentro de uma cúpula de vidro leitoso. Não havia faixas luminosas nas paredes, superfícies inteligentes ou assistentes domésticos esperando uma ordem, apenas o clique seco do interruptor. À esquerda ficava uma cozinha estreita, separada por um balcão de madeira; à direita, uma mesa com duas cadeiras diferentes, ambas antigas, e depois uma estante ocupando toda a parede até quase o teto. Livros se acumulavam na estante em duas fileiras, sobre a mesa, sob a janela, dentro de caixas, ao lado do sofá e até no chão, onde formavam pequenas pilhas que obrigavam qualquer visitante a aprender um caminho próprio entre a porta e os demais cômodos.
Tirou o casaco molhado e o pendurou numa cadeira. Colocou o café sobre o balcão, lavou as mãos e encheu uma chaleira; o fogão era elétrico, antigo o bastante para possuir botões, e uma das bocas aquecia mais que as outras. Enquanto esperava, abriu a janela da sala alguns centímetros. Entrou o ruído distante da cidade, abafado pela altura: sirenes, motores, um trem passando, música de algum apartamento, o som grave de uma aeronave de carga e, quase perdido no conjunto, alguém anunciando alguma coisa numa rua que ele não conseguia ver.
Olhou para os livros, que não estavam organizados como uma biblioteca deveria estar. Platão dividia prateleira com manuais de contabilidade. Agostinho estava ao lado de um volume sobre história do Estado de São Paulo; havia literatura russa, gramáticas, tratados de lógica, Bíblias, romances populares, enciclopédias incompletas, dicionários e cadernos escritos à mão.
Alguns exemplares tinham capas restauradas com fita; outros estavam tão gastos que pareciam sobreviver pelo hábito de não serem movidos, e ele sabia onde quase todos estavam, enquanto os poucos que se escondiam exigiam uma procura que considerava parte da leitura.
A chaleira desligou, então passou o café num filtro de pano, devagar, deixando a água escura subir e desaparecer pelo pó, sem adicionar açúcar. Levou a caneca até a sala, acendeu um abajur sobre a mesa e apagou a lâmpada do teto. O apartamento ficou menor e mais quieto; a luz amarela tocava apenas a madeira, a borda da caneca e uma parte dos livros, enquanto a janela continuava azulada pela claridade da cidade.
Sentou-se e, por alguns minutos, não fez nada além de beber o café e ouvir a água escorrendo pelas calhas externas do prédio. O dia havia deixado nele aquela espécie de cansaço que não pedia sono, mas redução; menos luz, menos vozes, menos coisas solicitando resposta. Pensou no menino acompanhando as letras no próprio braço, na gramática latina da feira, na cruz de madeira entre as oficinas. Não havia conclusão comum às três coisas, e talvez fosse melhor assim. O hábito de concluir tudo era uma doença de gente que escrevia demais.
Estendeu a mão para uma pequena pilha à direita da mesa e retirou um livro encadernado em tecido verde escuro. A lombada estava gasta nas extremidades; abriu onde havia deixado uma tira de papel e ajeitou os óculos. Era Boécio.
Lá fora, Katu-monhang continuava acendendo seus milhões de janelas, comprando, vendendo, calculando, subindo e descendo pessoas por dentro de suas colunas; na sala, a lâmpada antiga permanecia imóvel sobre a mesa, e o homem começou outra vez a ler A Consolação da Filosofia.
