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Centro de PublicaçõesArbitrárias e Ocasionais

Publicações esporádicas sobre ideias, inspirações e criações.

Publicação em série

Nino Looko, Álex Lazarini e a formação pelo subterrâneo

Série: Musicologia Pessoal

Sobre rap, cultura trash, referências improváveis e uma influência que ficou quando o artista desapareceu

Se existe um texto adequado para inaugurar um Centro de Publicações Arbitrárias e Ocasionais, provavelmente é este.

Não se trata de recuperar um grande nome esquecido pela historiografia oficial do rap brasileiro. Também não pretendo fabricar retrospectivamente uma importância pública que nunca existiu nas proporções que normalmente justificam um ensaio sobre determinado artista. O caso é mais interessante justamente por isso. Álex Lazarini foi um fenômeno pequeno em alcance e enorme na coisa produzida. Pelo menos para mim.

Eu o conheci como Nino Looko.

A internet ainda preserva alguns rastros que confirmam essa memória. Em junho de 2015, quando saiu Fronteira Celeste, páginas especializadas apresentavam Álex Lazarini explicitamente como Nino Looko, rapper do Vale do Paraíba e integrante da Marginal's Mafia. Uma das divulgações da época chegava a apontar diretamente para facebook.com/nino.looko, exatamente o universo em que comecei a conversar com ele.

Foi Fronteira Celeste que me levou até o sujeito.

O EP tinha cinco faixas: Mal Presságio, Atividade Paranormal, Tíner, Vítimas e Xifre de Capivara. A produção era do próprio Álex, desde os beats até mixagem e masterização. O trabalho já continha quase tudo que depois me faria continuar acompanhando aquele estranho pedaço do underground paulista: ficção científica, terror, cultura pop, escatologia improvisada, humor absurdo, cinema, linguagem de rua e uma produção musical que parecia recusar qualquer obrigação de soar comportada.

Foi por causa disso que mandei mensagem para ele no Facebook.

E o sujeito era tão interessante quanto a música.

Um rapper que dizia ter visto OVNIs

Nós conversamos sobre OVNIs.

Sim.

O primeiro artigo deste Centro chegou onde precisava chegar.

Ele me contou sobre coisas que teria visto. Conversamos sobre os vídeos que fazia, sobre os clipes subterrâneos, sobre a própria estética da música. Havia nele aquela espécie muito particular de maluquice que pode produzir algo artisticamente interessante quando encontra técnica suficiente para ganhar forma.

E Álex tinha técnica.

Em algum momento ele gostou de mim o suficiente para prometer um beat. Eu escolhi um. Depois descobrimos que aquele beat já tinha sido vendido. Ele estava sem outro que pudesse me passar naquele momento e a promessa terminou por aí.

Nunca fomos amigos íntimos. Seria falso reescrever a história desse jeito. Também nunca perdemos inteiramente o contato durante aquele período. De vez em quando surgia alguma conversa, alguma música, alguma ideia. Foram poucas conversas, vistas à distância de mais de uma década, só que suficientes para eu lembrar delas até hoje.

Em uma delas ele me falou que havia lido a Bíblia.

Aquilo ajudou a explicar algo que eu já tinha percebido em Mal Presságio. A primeira faixa de Fronteira Celeste trabalha com imaginário apocalíptico, incluindo a lua de sangue. O curioso é que isso aparecia no mesmo espaço mental em que surgiam referências cinematográficas, personagens, imagens de terror, cultura popular e um monte de coisas que um rapper comum simplesmente não pensaria em juntar.

A própria divulgação de Fronteira Celeste na época descrevia o projeto em termos cósmicos, falando da existência material, da terceira dimensão, da pequenez humana diante do universo e de uma humanidade atravessando as fronteiras celestes.

O nome do EP não era decoração.

Havia uma cosmovisão bagunçada ali.

E a bagunça era parte da graça.

A cultura de alguém que fuçava demais

Foi isso que mais me impressionou em Álex Lazarini.

Ele parecia ter fuçado coisas demais.

Sua cultura não vinha apenas do cânone previsível do rap. O rap estava ali, evidentemente, assim como a rua, o protesto, a linguagem agressiva e o universo próprio do hip hop. Só que ao redor disso apareciam terror, ficção, anime, rock, punk, heavy metal, cinema trash, referências literárias, personagens mitológicos e objetos culturais que pareciam ter sido encontrados às três da manhã depois de alguém entrar numa página da internet e resolver clicar em tudo.

Quando A Maldição Cigana da Escola Pública saiu, em novembro de 2017, a própria apresentação do disco registrava essa mistura. Álex tinha então 23 anos, era apresentado como produtor e compositor, e o álbum trazia 23 faixas. A imprensa especializada destacou expressamente a fusão entre punk rock e rap e informou que toda a produção havia sido feita pelo próprio artista, incluindo instrumentais, gravação e mixagem.

Isso explica parte da sensação.

O underground de Álex não consistia apenas em ter poucos ouvintes. Era uma linguagem.

Os beats carregavam isso.

Sempre considerei Álex um produtor extraordinariamente bom. Faço essa afirmação deliberadamente como juízo meu. Se alguém quiser uma tabela de popularidade, números de streaming e certificações de mercado, escolheu o artigo errado. Estou falando da capacidade de pegar uma referência, recortar um sample, deslocar sua atmosfera e construir alguma coisa que parecia ter saído de uma fita encontrada num porão.

Já escutei samples que conhecia utilizados por outros produtores e depois ouvi o que Álex tinha feito com material semelhante. Em alguns casos gostei mais do que ele fez.

Talvez seja justamente essa a diferença entre competência técnica e imaginação.

O underground pode trabalhar com pouco e ainda assim enxergar muito.

Goku, Lactobacillus e sete pastores exorcistas

Talvez nada explique melhor a cabeça daquele sujeito do que os agradecimentos que acompanhavam um dos trabalhos.

A formulação que guardei na memória e nos meus registros dizia:

Primeiro eu gostaria de agradecer ao Goku, que dedicou sua vida a juntar as sete esferas do dragão; ao Senhor Barriga por ter levado Chaves para Acapulco; ao inventor do saquinho de geladinho, que me proporcionou uma ótima infância e facilita o endolamento; importante agradecer aos sete pastores que foram em casa pra me exorcizar; George Romero por ter criado os maiores clássicos extraordinários de zumbi; aos queridos Lactobacillus casei Shirota por resistirem e chegarem vivos ao meu intestino; ao Shaka de Virgem, que me ensinou a elevar o cosmo ao sétimo sentido; agradeço também ao AJATYCKI, que crackeia o FL Studio pra galera; à minha vizinha MILF, que lava a calçada de shortinho; aos Marginal's Mafia e Próprios Punhoz.

Pronto.

Isso é Nino Looko.

Há humor de quinta série, memória de infância, cultura de anime, George Romero, referência sexual, produção musical pirata, rap e uma história envolvendo sete pastores tentando expulsar demônios de sua casa.

Tudo no mesmo parágrafo.

E o curioso é que aquilo combinava com a música.

Agradecimentos de disco normalmente são a parte burocrática do projeto. No caso dele, viravam outro pedaço da obra.

Era uma espécie de colagem cultural permanente.

Naquele ambiente cabia Bala de Prata, essencialmente orbitando a figura do lobisomem. Cabia Carrie. Cabia Rainha dos Condenados. Cabia God of War. Cabia uma música chamada A Culpa é das Estrelas. Cabiam recortes de filmes inseridos dentro das faixas, às vezes reconhecíveis imediatamente e às vezes dependentes de alguma familiaridade cinematográfica um pouco menos normal.

Minha cinefilia ajudava.

Eu reconhecia muita coisa. Quando não reconhecia, algumas referências acabavam abrindo outras portas.

Esse é um aspecto da formação cultural sobre o qual se fala pouco. Às vezes alguém nos ensina sem ocupar qualquer posição de professor. Uma referência leva a outra. Uma imagem conduz a um filme. Um sample faz alguém procurar a gravação original. Uma frase estranha leva a um livro.

A influência cultural raramente respeita organogramas.

O rap segundo um sujeito que não queria parecer normal

Depois de Fronteira Celeste veio Viva Fodido ou Morra Fodendo, segundo EP de Álex. A publicação de dezembro de 2015 ainda o identificava explicitamente como Nino Looko e registrava que beats e mixagem eram do próprio Álex. A arte da capa também era dele.

A descrição publicada na época falava de um universo pessoal e de momentos de insanidade e lucidez.

É uma descrição surpreendentemente exata.

Álex nunca foi ortodoxo.

Em nenhum sentido.

O rap dele tampouco era cristão. Isso precisa permanecer evidente porque minha apreciação artística atual não alterou minha teologia e muito menos minha moral. Há coisas nas músicas que eu rejeitava e continuo rejeitando. Existem momentos em que a transgressão estética atravessa a fronteira e alcança aquilo que, segundo as Escrituras, deve simplesmente ser chamado de pecado.

Reconhecer isso não exige fingir que nada de bom existia ali.

A doutrina cristã jamais me obrigou a mentir sobre a realidade.

Se um homem produz um beat excelente, o beat não se torna ruim porque sua teologia é péssima. Se constrói uma associação cultural inteligente, a inteligência da associação permanece observável. Se conhece cinema, sabe produzir, escreve uma imagem interessante ou encontra uma solução estética incomum, posso reconhecer cada uma dessas coisas sem transformar o artista em mestre espiritual.

O reino de Deus define minhas prioridades.

Justamente por isso posso colocar cada coisa em seu lugar.

Não preciso divinizar aquilo de que gosto.

Essa talvez seja uma das vantagens de possuir um padrão exterior aos próprios gostos.

O pirata e o psicopata

Existe uma faixa que ainda serve como boa porta de entrada para compreender o fenômeno. O Pirata e o Psicopata, com Barba Negra, Álex Lazarini e DJ Gabiru, ainda deixa vestígios suficientes na internet para que aquele universo seja reconhecido. Registros públicos continuam associando os dois artistas à faixa.

O título já entrega metade do método.

Pirata.

Psicopata.

Personagens.

Cinema.

Exagero.

Um pouco de lixo cultural cuidadosamente escolhido.

Um pouco de alta cultura desmontada e remontada num beat.

E muito subterrâneo.

Eu gosto da palavra trash para explicar isso, desde que ela seja entendida corretamente. Trash pode significar porcaria. Também pode designar uma tradição estética inteira que conhece sua precariedade, explora o grotesco, aceita o exagero, reutiliza clichês de terror e encontra beleza justamente onde a produção higienizada jamais procuraria.

O webclipe precário fazia sentido naquele ambiente.

A imagem granulada fazia sentido.

O sample esquisito fazia sentido.

Até o cabelo cada vez maior fazia sentido.

Com o tempo, Álex parecia visualmente cada vez mais próximo daquela mistura que sua música já carregava. Rapper, produtor, sujeito do punk, um pouco metal, um pouco personagem perdido num filme de terror barato.

E funcionava.

Crianças de cristal

Uma das coisas de que mais me lembro é Stand By Me (Crianças de Cristal).

Há um trecho que ficou comigo:

Translação e rotação girando a engrenagem do grande relógio
diminuindo a contagem dada a data limite,
a chegada da viagem entrecortando o tempo e o espaço,
a caravana da coragem.
São crianças de cristal brincando em seu quintal
com amigos invisíveis vindo do plano astral.
E nós que já crescemos perdemos poderes
com nossas mentes sujas, pensamentos e prazeres.
Esquecemos quem éramos antes,
sentindo e vivendo apenas um instante.

Eu evidentemente não compartilho a metafísica do trecho.

Plano astral não pertence à minha cosmovisão. Minha doutrina do homem, dos espíritos, da criação e da revelação vem das Escrituras.

Isso nunca me impediu de perceber a força poética da imagem.

A criança que percebe o mundo com espanto e o adulto soterrado por desejos baixos é uma imagem que pode ser arrancada da metafísica equivocada e reconhecida em outro tribunal. O homem realmente aprende a amar coisas pequenas. Realmente consegue reduzir sua imaginação a dinheiro, sexo, distração, status e sobrevivência. Realmente perde a capacidade de contemplar.

Anos depois eu ainda carregava a atmosfera daquele verso.

Cheguei a escrever uma continuação inspirada nele. Depois usei inteligência artificial para transformá-la numa música completa, com voz, refrão e produção. Não era uma tentativa de copiar Álex. Eu queria descobrir o que tinha ficado em mim depois de tantos anos.

Alguma coisa tinha ficado.

A estranha genealogia das influências

Hoje consigo enxergar melhor uma coisa que em 2015 eu jamais formularia desse modo.

Parte da minha sensibilidade antissistêmica passou por lugares estranhos.

Álex Lazarini foi um deles.

Seria ridículo atribuir a ele o desenvolvimento da minha visão política, filosófica ou teológica. Minhas convicções foram formadas em outro tribunal, por outras fontes e finalmente sob a autoridade das Escrituras. Só que existe também uma formação da sensibilidade. Existe aquilo que nos ensina onde procurar.

Álex me ajudou a olhar para baixo.

Para o subterrâneo.

Para o que ninguém estava vendo.

Na mesma época, rappers excelentes trabalhavam com referências culturais muito mais reconhecíveis. Um filme recente de sucesso entrava numa letra. Um personagem popular aparecia num verso. Nada havia de errado nisso. Eu mesmo gostava.

Com Nino Looko acontecia outra coisa.

Você podia encontrar George Romero, Cavaleiros do Zodíaco, alguma imagem de Apocalipse, lobisomem, um filme trash, referências cósmicas e um sample que parecia ter sido desencavado de um disco que três pessoas possuíam.

Isso ampliou meu senso do que o rap poderia fazer.

E, por contraste, tornou ainda mais evidente uma ausência que continuo percebendo.

Onde está o underground protestante?

Não estou perguntando por rap gospel no sentido mercadológico. Isso existe há muito tempo. Também não estou perguntando por um rapper que acrescenta a palavra Jesus a uma estrutura musical pronta e devidamente domesticada.

Estou pensando em brutalidade artística submetida à verdade.

Penso num rap capaz de pegar o Salmo 18 e entender o que está lendo.

Deus descendo com trevas debaixo de seus pés. Fumaça subindo de suas narinas. Fogo saindo de sua boca. Montanhas abaladas. O Altíssimo trovejando nos céus. O inimigo esmagado.

A Bíblia não sofre de falta de imagem.

O protestantismo contemporâneo frequentemente sofre.

Quando vi até onde um underground secular podia levar terror, mito, cinema, samples, ruído, agressividade e imaginação, tornou-se ainda mais irritante perceber como grande parte da produção cristã aceitava permanecer artisticamente domesticada.

Isso me influenciou quando tentei produzir meu próprio rap cristão.

Eu queria outra coisa.

Queria a agressividade submetida à Escritura.

Queria o protesto recuperado por protestantes.

Providência também passa por lugares estranhos

Aqui aparece uma questão mais séria.

Como um cristão deve falar de uma influência desse tipo?

Começo recusando a idolatria.

Álex Lazarini não é meu mestre. Não conheço sua condição espiritual atual. Não sei sequer onde ele está. Não seria responsável declarar se é convertido ou incrédulo a partir de conversas fragmentárias ocorridas há mais de dez anos.

Posso dizer apenas aquilo que vivi.

As conversas que tivemos sobre cristianismo eram positivas. Havia dificuldades, perguntas e uma espécie de aproximação que reconheci muitas vezes em outras pessoas. Ele me contou ter lido a Bíblia. Falamos de coisas que me fizeram desejar que aquela leitura chegasse muito mais longe.

Minha oração hoje é simples.

Se ele pertence a Cristo, glória a Deus.

Se ainda não pertence, que Deus o converta.

Prefiro que o Senhor o encontre a que eu consiga encontrá-lo.

Isso coloca também sua influência em perspectiva.

Deus governa a história inteira. Sua providência não fica restrita aos instrumentos que nós consideraríamos pedagogicamente adequados. Um cristão pode aprender técnica com um incrédulo, disciplina com um pagão, lógica ao observar um erro e estética vendo alguém explorar caminhos que ele próprio jamais seguiria integralmente.

A origem instrumental de uma descoberta não estabelece sua verdade.

A Palavra de Deus estabelece.

Aquilo que recebi de bom daquele encontro pode ser julgado, separado e colocado no lugar devido. O que era pecaminoso fica rejeitado. O que era tecnicamente excelente pode ser reconhecido. O que despertou curiosidade permanece parte da minha história.

Não preciso falsificar o passado para santificar o presente.

O homem que sumiu

Talvez eu esteja escrevendo tudo isso justamente porque ele desapareceu.

Não literalmente, pelo menos até onde sei.

Desapareceu daquele mapa.

Hoje encontro um canal. Encontro algumas músicas perdidas. Encontro páginas antigas. Encontro registros de lançamentos. A internet preservou a notícia de que Fronteira Celeste saiu em 2015. Preservou Nino Looko. Preservou o segundo EP. Preservou o lançamento de A Maldição Cigana da Escola Pública. Preservou até um single chamado Velho Barreiro, lançado ainda em agosto de 2015 pela Marginal's Mafia.

Só que eu não encontro mais o sujeito com quem conversava.

Isso produz uma sensação estranha.

A internet prometeu conservar tudo e se tornou excelente em perder justamente as coisas pequenas.

Um artista independente pode produzir durante anos, lançar dezenas de músicas, formar a sensibilidade de algumas centenas de pessoas e depois virar meia dúzia de links quebrados.

O streaming não resolveu isso.

Talvez tenha piorado.

Aquilo que não entra no grande catálogo simplesmente afunda.

Por isso reuni o que consegui encontrar. Baixei músicas. Recuperei outras que estavam espalhadas. Tentei reconstruir a discografia que eu lembrava de ouvir.

Talvez ainda falte alguma coisa.

Provavelmente falta.

Só que agora existe um pequeno arquivo.

E existe este texto.

Um fenômeno gigante na coisa em si

Quando digo que Álex Lazarini foi grande, quero dizer algo muito específico.

Ele não foi grande numericamente.

Não preciso fingir isso.

Foi grande na coisa em si.

Num determinado contexto psicológico, sociológico e cultural, aquilo que ele construiu possuía uma densidade rara. Era um artista jovem, do interior paulista, produzindo os próprios beats, gravando, mixando, fazendo capa, escrevendo, recortando cinema, misturando punk e rap e inventando um pequeno universo que nunca pediu autorização para existir. A documentação da época confirma justamente esse grau de controle autoral sobre a produção.

Talvez cem mil pessoas nunca tenham ouvido.

Que importa?

Uma obra não adquire todas as suas qualidades no momento em que o contador passa de cinco zeros.

Há lixo com milhões de visualizações.

Há pequenas obras extraordinárias enterradas em contas abandonadas.

A popularidade mede popularidade com uma eficiência impressionante.

Só isso.

Nino Looko me mostrou uma possibilidade do rap.

Mostrou que o subterrâneo podia ser culturalmente mais largo que a superfície. Mostrou que um beat podia carregar memória cinematográfica. Mostrou que rap, punk, terror, humor idiota, ficção científica e cultura de internet podiam habitar o mesmo quarto sem pedir desculpas.

Depois minha vida seguiu.

Minha teologia amadureceu. Minha compreensão do cristianismo se tornou mais rigorosa. Minha produção mudou. Meu critério moral se tornou ainda mais conscientemente submetido às Escrituras.

Ainda gosto de algumas daquelas músicas.

Sem culpa.

Também continuo rejeitando aquilo que nelas merece rejeição.

Sem crise.

Talvez maturidade seja justamente poder lembrar de uma influência sem precisar transformá-la em santo ou demônio.

Álex foi um cara muito doido que fazia rap muito bom.

Nino Looko foi parte de uma época.

E, de um jeito improvável, aquele rapaz do Vale do Paraíba que fazia música sobre presságios, lobisomens, crianças de cristal e sabe Deus mais o quê ajudou a me ensinar que existe vida intelectual e artística muito além daquilo que recebeu permissão para ocupar a superfície.

Isso ficou.

Por isso ele inaugura este Centro de Publicações Arbitrárias e Ocasionais.

Seria inadequado começar com alguma coisa normal.

E se algum dia este texto chegar a Álex Lazarini, espero apenas que ele saiba que, em algum lugar, alguém ainda lembra.

E, acima de tudo, espero que Cristo o conheça.

O resto é secundário.

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