DIAS SEM TRETA

Please or Cadastrar to create posts and topics.

Sola Scriptura é o fundamento para não cessar os dons

A Escritura e o sentido verdadeiro não tratam de fins, mas de princípios. Ela não aponta para uma conclusão encerrada, mas para o ponto de partida inegociável. A Escritura é princípio, é fundamento. E, sendo fundamento, é dela que brota todo o entendimento, toda a ética, toda a estrutura da realidade para o homem. Somente a Escritura — sola scriptura — é esse fundamento. É a partir dela que a mente é moldada, que os juízos se estabelecem, que a vida é conduzida.

Afirmar sola scriptura não significa declarar o fim da ação de Deus. Não é afirmar que, porque o cânon está fechado, o poder de Deus cessou. Isso é um erro grosseiro, um erro de categoria. Quem tenta derivar a cessação do agir de Deus a partir do princípio da sola scriptura está confundindo fundamento com encerramento, origem com limite. Mas princípios não encerram — princípios geram, sustentam, impulsionam.

A Escritura é a base que garante a ação de Deus, não que a limita. Se Deus decretou que sua revelação escrita está completa, isso não implica que sua ação está encerrada. O Espírito Santo, que inspirou a Escritura, não foi retirado do mundo. A Escritura não é uma lápide — ela é uma fonte viva.

O problema surge quando a frase sola scriptura é usada como um bordão vazio. Repeti-la sem entender o que ela afirma de fato é uma auto-refutação. Porque sola scriptura não é um amuleto. É uma declaração de guerra contra qualquer autoridade que tente se impor sobre a Palavra de Deus. Ela não é um limite à ação divina, mas um limite à arrogância humana.

E mais: se você está citando sola scriptura, mas não está se submetendo ao que a Escritura de fato ensina — com seu poder, seus dons, sua atuação viva no mundo — então você não crê em sola scriptura. Você crê em sola tua opinião. O princípio das Escrituras deve moldar a vida, não aprisioná-la em uma filosofia de cessação criada para justificar incredulidade.

A Escritura é o princípio. E a partir dela, tudo deve ser julgado. A partir dela, tudo deve ser sustentado. Mas jamais se pode inverter isso e transformar o princípio em fim, como se o fechamento do cânon fosse o fechamento da boca de Deus. Porque o Deus da Escritura nunca parou de agir. E se você tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, Ele continua falando. Pela Escritura. Pelo Espírito. E sempre para a glória dEle.

Quando você fala sola scriptura, parece que está achando que isso tem a ver com conclusão. Mas sola scriptura não tem a ver com conclusão, e sim com princípio e finalidade. O princípio se refere ao fato de que ela é o ponto formador, a base, a nossa epistemologia. É a teoria do conhecimento a partir das Escrituras. Em outras palavras, ela é o axioma que gera a nossa teoria do conhecimento.

E por que finalidade? Porque o objetivo das Escrituras é dar finalidade à vida cristã. Ela é a revelação verbal de Deus para nos ensinar como agir, viver, pensar, adorar o Senhor verdadeiramente e assim por diante.

E então, como se dá isso? Qual a função de sola scriptura? É o entendimento de que a autoridade final e fundamental é a Escritura. Simples assim.

Isso quer dizer que nem a tradição, nem revelações externas, nem as atitudes dos homens, nem as pregações dos homens, nem suas experiências podem suplantar a Escritura. Todas essas coisas devem ser julgadas e guiadas por ela.

Portanto, quando Paulo fala que uma igreja comum — e não apenas os apóstolos — teve sinais e maravilhas, o que a Escritura está me dizendo? Que eu também posso ter sinais e maravilhas. Quando Cristo promete algo relacionado ao Espírito Santo, e não limita isso aos apóstolos — como na Grande Comissão — o que eu devo entender? Que eu também posso viver isso.

Isso é sola scriptura de verdade. Não é adulterar o texto, não é torcer a revelação. É crer no que foi revelado e viver a partir disso.

Aí Jesus Cristo vem e fala em Marcos 16, dos versículos 15 ao 18: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." Isso tem relação com quem? Com os apóstolos ou conosco? Com os apóstolos e também conosco. "Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." Nem precisamos entrar no mérito do batismo aqui — está evidente: quem crer será salvo, quem não crer será condenado. Beleza.

Agora, a pergunta essencial: esses sinais seguirão a quem? Aos discípulos que já creram? Aos demônios? Aos anjos? Aos apóstolos exclusivamente? Que estranho... O texto diz que esses sinais seguirão aos que crerem. Em nome de Cristo, expulsarão demônios, falarão novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes causará dano algum. Imporão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados.

Meu Deus do céu. Olha só isso. Então, acontece que aquele que crê — porque creu e, por isso, não foi condenado — terá esses sinais o acompanhando. E aí a coisa fica ainda mais interessante quando a gente olha para a história da igreja. Porque a história da igreja é feita desses sinais. Ela está repleta disso. O que não falta é base histórica para comprovar a continuidade dessas manifestações. Nem vou entrar no mérito aqui, mas até a igreja católica tenta desesperadamente compilar milagres e sinais para canonizar seus “santos”. E olha que a teologia deles é cheia de abominação.

Mas não vamos desviar do foco. O ponto aqui é o texto bíblico. Os versos 16 a 18 são simplesmente perfeitos. Perfeitos. E aí, o opositor vem e tenta dizer: "Ah, mas Marcos está tratando da Grande Comissão!" Beleza. E daí? Ferva-se. Isso só reforça o ponto. Trata-se da Grande Comissão, ou seja, trata-se de algo que também é para nós.

Aí o adversário tenta mais uma: "Esse texto revela a promessa de Deus aos santos apóstolos que seriam conduzidos pelo Espírito Santo à verdade revelacional." Tudo bem. Isso está certo em parte. O texto pode significar isso, claro. Pode sim estar se conectando ao "recebereis poder" de Atos 1:8. Mas o ponto é: o texto vai além disso. O texto é claro: os que crerem — e não apenas os apóstolos — farão essas coisas. Ele não está se limitando aos doze. Ele está falando de todos os que crerem por meio da pregação apostólica.

E aqui está a beleza do texto. Se fosse apenas para os apóstolos, Cristo teria dito: "Esses sinais seguirão vocês." Mas Ele não disse isso. Ele disse: "Seguirão aos que crerem." Ou seja, os que crerem por meio da pregação dos apóstolos — o que inclui a nós, hoje. Isso está tão claro que não dá nem pra fingir que não está. É poder demais na Palavra de Deus.

Aí vem outro opositor e tenta dizer: "Jesus estava falando dos dons revelacionais, que seriam dados apenas naquele tempo, para confirmar a mensagem." Mentira. O texto não diz isso. Isso é acréscimo ao texto. O que o texto diz é que esses sinais seguirão aos que crerem. O foco continua sendo esse: o resultado da fé que nasce pela pregação apostólica.

E se existe uma sucessão apostólica — e eu acredito que existe, mas apenas no sentido da pregação — então o texto é para nós. A igreja continua sendo apostólica porque se sustenta sobre o ensino dos apóstolos. Há uma sucessão, sim, mas não institucional. É sucessão de verdade, de conteúdo, de doutrina pregada e vivida.

E essa é a lógica supralapsariana: Deus é perfeito, Ele ordenou tudo, e a Palavra chegou até nós porque Ele quis que chegasse. E esses sinais também. O texto não está dizendo que apenas os primeiros crentes receberam isso. O texto está dizendo que os que creem — sem limitação temporal — serão acompanhados por esses sinais.

Aí o adversário tenta mais uma manobra: "Ah, mas os apóstolos assumiram a função dos profetas antigos para entregar a revelação completa." Ok. Isso também é verdade. Mas isso não anula em nada o que o texto diz. O texto continua tratando da vida daqueles que creem, não apenas dos que entregaram revelação canônica. Não adianta tentar escapar. O texto é direto, claro, cristalino.

Ele fala dos que crerem. Fala de nós. Fala de todos que, pela graça, ouvirem o Evangelho e crerem. E se crerem, esses sinais os seguirão.

Agora a coisa fica um pouco pior — ou melhor, dependendo do ponto de vista — porque eu fui pegar logo um texto que, à primeira vista, parece que não tem relação conosco (João 14:10-27). Mas tem. E tem muita relação. Vamos começar pelo verso 10. “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras.” Beleza. Cristo está falando aos apóstolos, certo? Mas também está fazendo um testemunho que João está registrando — ou seja, um testemunho que é para nós também. “O Pai que está em mim faz as obras.” Isso está claro. As obras vêm do Pai. E Ele está dizendo: “Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras.” Ou seja, as obras estão se manifestando e testificam que Ele é quem diz ser. Beleza.

Agora vem o ponto explosivo: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.” Cristo está falando: tudo isso que vocês estão vendo acontecer — essas obras — vocês devem crer nelas, e com vocês elas ficarão maiores. Por quê? Porque Ele vai para o Pai. Porque a Igreja está sendo plantada. O texto todo fala de coisas que dizem respeito à Igreja. A Igreja tem o Espírito Santo. A Igreja é chamada a crer em Cristo. A Igreja entende que Cristo e o Pai são um.

E o que mais Ele diz? “E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” Isso aqui tem relação só com os apóstolos? Não. Isso aqui tem relação direta com o Sermão do Monte. Isso aqui é para todos os discípulos, em todas as épocas. E aí você quer me dizer que não é pra guardar isso porque é só para os apóstolos? Que estranho, né?

Cristo continua: “E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.” Quem é esse Consolador? O Espírito Santo. E Ele virá só para os apóstolos? Eu não recebo o Espírito Santo? O Espírito não participa da minha vida também? Se você quiser afirmar que esse texto é só para os apóstolos, então você vai ter que ser honesto e dizer que a oração também não é para você. Que Cristo não roga por você. Que os mandamentos d’Ele não são para você. Porque a linguagem aqui é a mesma, se não mais universal. E aí, como você lida com isso?

O Espírito é o Espírito da verdade que o mundo não pode receber. E por quê? Porque não o vê, nem o conhece. Mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós. Olha só! A limitação não é temporal. A limitação é espiritual. É o mundo que não pode conhecê-lo. “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.” Cristo está dizendo: o Espírito Santo vai estar com vocês, com os apóstolos, e depois com os filhos deles na fé — com a Igreja.

Ele diz: “Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis.” De novo, isso não é só para os apóstolos. Isso é escatológico. Isso aponta para a promessa da união com Cristo. É para todos nós. “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.” Isso é sobre a nossa união com Cristo. Isso é nossa doutrina. Isso é para todos os que creem.

E aí Ele manda: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama.” Pera lá, isso aqui é só pros apóstolos? Claro que não. O próprio texto responde: “E aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” Isso é vida cristã. Isso é discipulado. Isso é o Evangelho. Isso é a comunhão com Cristo.

Judas (não o Iscariotes) pergunta: “Senhor, de onde vem que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo?” E Cristo responde: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.” Alguém. Não é apenas “vocês”, os apóstolos. É qualquer um. “Quem me ama não guarda minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou.” Por que Cristo enfia isso no meio do ensino sobre o Espírito Santo? Porque guardar Sua palavra significa confiar nas promessas d’Ele. Significa crer que Ele nos dará o Consolador. Que nós faremos obras maiores. Que cremos verdadeiramente n’Ele. Que confiamos na Palavra inteira — e não só nos pedaços que servem às nossas doutrinas doentias.

Cristo segue: “Tenho-vos dito isto, estando convosco. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.” Isso tem a ver com revelação para os apóstolos? Claro. Mas também tem a ver com ensino, com iluminação, com direção. Isso se aplica a nós? Obviamente que sim.

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” Como que alguém vai ter coragem de dizer que isso aqui não é para o crente? Como alguém vai arrancar esses versículos da alma do povo de Deus? Como vão dizer que o Consolador não é para o crente? E se o Consolador é para o crente, como vão dizer que o Espírito não opera mais as obras maiores? Sendo que esse mesmo Espírito é quem faz essas obras?

Se você fizer isso, você mata o texto. Você estupra o texto. Você desfigura o ensino de Cristo. Você rasga as Escrituras. Não dá. Simplesmente não dá.

© Orlando Terceiro
Todos os direitos reservados