Destrói-os na tua verdade — Salmo 54:5

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Interpretação e Lógica

Antes de harmonizar textos, é preciso conhecer o princípio que governa a sua leitura conjunta, e a tradição reformada o chamou de analogia da fé: a Escritura interpreta a Escritura, e nenhuma passagem deve ser lida de modo a contradizer o conjunto claro do ensino bíblico. Este princípio é, no fundo, uma aplicação do postulado da coerência que mencionamos ao tratar das leis do pensamento: como a revelação procede de um só Autor que não se contradiz, ela forma um sistema, e cada parte deve ser lida à luz do todo. Negar isso seria tratar a Escritura como um amontoado de fragmentos avulsos, e não como a palavra unificada do Deus uno.

Daqui decorre uma regra de ouro da interpretação, que também é uma regra de lógica: o texto obscuro deve ser lido à luz do texto claro, nunca o contrário. Há passagens difíceis, ambíguas, sujeitas a mais de uma leitura; e há passagens límpidas, cujo sentido é inequívoco. Construir uma doutrina sobre uma passagem obscura, contra o que muitas passagens claras ensinam, é inverter a ordem da prova, dando à dúvida a autoridade que pertence à certeza. É o mesmo erro que, no Capítulo 10, vimos no cientificismo, que punha a conjectura a julgar o que é certo, agora dentro da própria Escritura: o versículo difícil não derruba o ensino claro, mas é por ele iluminado. Quem segue a analogia da fé deixa o conjunto da revelação fixar o sentido das partes, e assim não faz uma passagem isolada dizer o que o sistema inteiro nega. A coerência da Escritura não é imposta de fora; é a marca de que ela vem do Deus que é o Logos.

  • Lógica para os cristãos, O. III

Objeção: Você usa lógica, logo a lógica é anterior à Escritura.

Resposta: A objeção supõe que a lógica seja instrumento neutro, criado ou descoberto pelo homem, com o qual se examina até mesmo Deus. Não é. A lógica é a expressão da racionalidade invariável do Logos, sem a qual nem sequer a negação de Deus conseguiria formar uma frase inteligível. João não escreve que no princípio havia um homem raciocinando, e sim que no princípio era o Logos, e que o Logos era Deus. A lei da não contradição não é régua colocada sobre Deus, e sim o modo como Deus é, de sorte que a mente humana raciocina validamente porque foi feita à imagem dEle e não porque descobriu sozinha uma técnica.

Um cristão pode encher páginas de versículos e ainda não demonstrar a doutrina que deseja defender. A presença material da Bíblia num argumento não assegura que seu significado foi compreendido, que as passagens pertencem à mesma questão ou que a conclusão realmente segue delas. Há sermões nos quais a Escritura aparece em abundância e governa pouco; funciona como sucessão de frases sagradas colocadas ao redor de uma opinião formada antes da leitura. O problema oposto também ocorre. Um teólogo constrói sistema de grande coerência, define termos com cuidado e relaciona muitas doutrinas, mas suas premissas decisivas vieram de tradição filosófica que jamais foi submetida ao texto. Nesse caso, a lógica serve com fidelidade ao ponto de partida errado. A beleza do edifício não corrige a propriedade do terreno sobre o qual ele inteiro repousa. O Escrituralismo precisa atravessar os dois perigos. Receber a Bíblia como primeiro princípio exige mais do que repeti-la, porque Deus comunicou proposições cujas relações devem ser compreendidas. Também exige mais do que admirar sistemas cristãos, pois qualquer formulação humana permanece julgável pela revelação. Entre a citação isolada e a especulação encontra-se o trabalho racional de deduzir. Dedução é a inferência em que a conclusão segue necessariamente das premissas. Se todos os homens pecaram e Paulo é homem, segue-se que Paulo pecou. A conclusão não acrescenta informação independente; torna explícita uma relação já contida no que foi afirmado. Negá-la enquanto se mantêm as premissas viola a racionalidade do Logos que sustenta toda comunicação verdadeira.

Lendo Clark and His Critics, refleti sobre algo. Se o que pensamos e agimos parte de uma construção social, significa que a verdade não existe ou é relativa a onde eu nasci ou como fui criado. Isso não faz sentido, pois nega a lei da contradição e a possibilidade de verdade objetiva. A interpretação de uma situação pelo indivíduo pode vir a ser influenciada pela sua construção social, mas no momento que uma verdade objetiva se manifesta e clareia tal situação, não há mais a possibilidade de uma tal construção social influenciar. Fato é que há influência em tudo que fazemos, com toda a certeza há, mas essa influência vem dos pressupostos religiosos que temos, e no caso do homem sem Deus, essa influência é totalmente guiada pelo pecado, sendo uma exceção o momento de lucidez que ele pode vir a ter, uma exceção advinda da providência divina.