Antes de harmonizar textos, é preciso conhecer o princípio que governa a sua leitura conjunta, e a tradição reformada o chamou de analogia da fé: a Escritura interpreta a Escritura, e nenhuma passagem deve ser lida de modo a contradizer o conjunto claro do ensino bíblico. Este princípio é, no fundo, uma aplicação do postulado da coerência que mencionamos ao tratar das leis do pensamento: como a revelação procede de um só Autor que não se contradiz, ela forma um sistema, e cada parte deve ser lida à luz do todo. Negar isso seria tratar a Escritura como um amontoado de fragmentos avulsos, e não como a palavra unificada do Deus uno.
Daqui decorre uma regra de ouro da interpretação, que também é uma regra de lógica: o texto obscuro deve ser lido à luz do texto claro, nunca o contrário. Há passagens difíceis, ambíguas, sujeitas a mais de uma leitura; e há passagens límpidas, cujo sentido é inequívoco. Construir uma doutrina sobre uma passagem obscura, contra o que muitas passagens claras ensinam, é inverter a ordem da prova, dando à dúvida a autoridade que pertence à certeza. É o mesmo erro que, no Capítulo 10, vimos no cientificismo, que punha a conjectura a julgar o que é certo, agora dentro da própria Escritura: o versículo difícil não derruba o ensino claro, mas é por ele iluminado. Quem segue a analogia da fé deixa o conjunto da revelação fixar o sentido das partes, e assim não faz uma passagem isolada dizer o que o sistema inteiro nega. A coerência da Escritura não é imposta de fora; é a marca de que ela vem do Deus que é o Logos.
- Lógica para os cristãos, O. III