Teologia · Doxologia e Prática
A mente sob o domínio de Cristo
Uma das dificuldades da vida cristã está em perceber com clareza a própria condição, porque o homem costuma examinar suas circunstâncias, seus problemas, aquilo que os outros lhe fizeram e até aquilo que gostaria de fazer, mas nem sempre examina como está pensando. E isso é muito sério, porque a maneira como ele entende a si mesmo, a Deus e ao mundo tem relação direta com suas decisões, seus desejos e sua conduta. Um cristão pode conhecer muitas doutrinas e, ainda assim, passar boa parte da vida sem julgar biblicamente o que acontece com ele.
Deus criou o homem à sua imagem (Gênesis 1:26-27). Tenho defendido, especialmente a partir da perspectiva escrituralista, que a racionalidade é fundamental para entender essa imagem, pois o homem é capaz de conhecer proposições, compreender verdades, fazer juízos e agir conforme aquilo que pensa. Dizer que o homem é racional, nesse sentido, significa reconhecer que ele foi criado para conhecer a verdade de Deus e viver de acordo com ela. Quando digo que a espiritualidade envolve a racionalidade, estou tratando precisamente dessa relação entre o pensamento humano e a revelação divina. É necessário fazer uma distinção. O pecado não transformou o homem em um ser incapaz de raciocinar, pois o incrédulo raciocina, aprende, calcula, estuda e faz muitas coisas corretamente. A corrupção está em sua condição moral diante de Deus e em sua disposição para rejeitar a verdade divina, de maneira que ele pode raciocinar muito e, ainda assim, pensar de modo contrário ao Senhor. Afinal, alguém pode elaborar explicações sofisticadas para justificar um pecado, sem que por isso deixe de estar pecando.
E qual é a fonte da verdade que deve governar o pensamento cristão? A revelação de Deus. O cristão tem nas Escrituras a Palavra do Senhor, suficiente para lhe ensinar o que precisa crer acerca de Deus e aquilo que Deus requer dele, de modo que pensar os pensamentos de Deus após Ele, expressão que gosto de usar, significa submeter o entendimento humano ao que Deus revelou e desenvolver coerentemente as consequências dessa revelação. Para raciocinar de modo fiel a Deus, a pessoa precisa receber a verdade divina como autoridade sobre aquilo que pensa.
Isso tem consequências muito práticas. Eu penso, julgo, escolho, desejo e ajo. Quando tomo uma decisão, faço alguma avaliação daquilo que considero verdadeiro, bom, vantajoso ou necessário e, às vezes, faço isso conscientemente, examinando minhas razões à luz das Escrituras. Em outras ocasiões, simplesmente repito um costume, sigo uma inclinação pecaminosa ou ajo com medo, irritação, vaidade e tantos outros motivos que nem me dei ao trabalho de examinar. O problema não se resolve fingindo que o pensamento desapareceu quando agi por impulso. Até nesse caso existem crenças, avaliações e desejos envolvidos, ainda que eu não os tenha examinado com cuidado.
Por isso, considero tão importante a linguagem bíblica do coração, termo que, em muitas passagens, designa a vida interior do homem, incluindo seus pensamentos, crenças, desejos e decisões. Quando a Escritura ordena que o coração seja guardado (Provérbios 4:23), não está falando de um órgão sentimental separado do entendimento. Falar da luta pelo coração é falar, em grande medida, da luta pelo que o homem crê, ama, deseja e decide. Não tenho interesse em separar artificialmente coração e mente como se um pertencesse às emoções e o outro fosse reservado à razão.
O apóstolo Paulo é muito claro ao tratar dessa questão. Em Romanos 8:5-8, ele relaciona a inclinação da carne às coisas da carne e a inclinação do Espírito às coisas do Espírito, tratando da orientação interior do homem, de sua disposição diante de Deus e daquilo a que ele se dedica. A mentalidade carnal expressa inimizade contra Deus; a espiritual diz respeito à vida daquele que pertence ao Espírito.
Assim, pensar espiritualmente tem um conteúdo definido. A pessoa precisa aprender a julgar a si mesma e tudo o mais conforme a verdade revelada, porque não pode chamar de espiritual um pensamento contrário ao que Deus diz.
Mas como isso acontece na vida comum? Essa é a dificuldade. O cristão acorda, trabalha, cuida da casa, resolve problemas, conversa, acessa a internet, recebe notícias, enfrenta contrariedades e tenta cumprir suas obrigações, e tudo isso ocupa sua atenção e exige algum juízo, por mais que ele nem sempre perceba. Acontece que ele pode passar o dia inteiro consumindo informações e reagindo aos acontecimentos, sem reservar tempo para examinar o que pensa sobre eles. Quando percebe, já está irritado, preocupado, distraído, desanimado ou preso a alguma inclinação que deveria ter combatido antes.
Eu não estou dizendo que todo sofrimento psicológico decorre de pouca leitura bíblica, nem que uma pessoa com dificuldades emocionais deva dispensar os cuidados de que precisa. Estou falando da responsabilidade moral e espiritual de examinar o próprio entendimento. O cristão pode enfrentar sofrimentos que independem de sua vontade e, mesmo nessas circunstâncias, precisa aprender a pensar com fidelidade à Palavra; também pode sofrer as consequências de seus próprios pecados, de hábitos desordenados e de juízos errados. É preciso distinguir essas situações para não transformar uma exortação bíblica em uma acusação indiscriminada.
Paulo ordena a renovação do entendimento em Romanos 12:2, renovação essa que tem relação com o conhecimento da vontade de Deus e, portanto, com aquilo que o cristão aprende, crê e aplica. O mesmo apóstolo fala de levar cativo todo o entendimento à obediência de Cristo (2 Coríntios 10:5). O texto trata do combate contra pensamentos contrários ao conhecimento de Deus, e sua exigência alcança o modo como o cristão deve tratar as ideias que aceita. O entendimento não pode ser uma área da vida na qual Cristo é reconhecido apenas de vez em quando.
E é aqui que eu quero ser bastante objetivo: o cristão precisa trabalhar a própria mente. Precisa ler as Escrituras, meditar naquilo que leu, orar de modo consciente, ouvir a pregação com atenção, corrigir crenças equivocadas e aprender a pensar antes de agir, o que exige perseverança porque não faz sentido alguém dizer que deseja pensar biblicamente e dedicar quase toda a atenção a conteúdos que não o ajudam a conhecer a Deus.
Talvez alguém responda: “Eu sei disso, mas minha cabeça está tão ocupada que mal consigo me concentrar para ler a Bíblia”. Eu entendo essa dificuldade, e é justamente por isso que gosto de um exemplo que pode ajudar a organizar o problema: imagine sua mente como uma biblioteca. É uma imagem, evidentemente, e não uma explicação literal de como o pensamento funciona. Ainda assim, ela permite visualizar a diferença entre ter informações e conseguir organizá-las para pensar melhor.
Imagine uma biblioteca bastante grande. Existem livros importantes, livros que deveriam ser descartados, papéis espalhados, materiais acumulados e coisas que você sequer se lembra de ter guardado. Alguns livros estão em suas prateleiras e podem ser encontrados com facilidade, enquanto outros contêm informações úteis, mas foram deixados pelo chão, misturados a todo o resto. Há também muito material inútil, ou francamente prejudicial, que continua ali simplesmente porque ninguém se ocupou em examinar o que deveria permanecer. No meio dessa biblioteca existe uma escrivaninha. Ela representa, no exemplo, o pouco de atenção que você ainda consegue dedicar conscientemente às tarefas do dia, pois é ali que organiza o trabalho, resolve uma obrigação, estuda alguma coisa, pensa nos filhos, paga uma conta e se prepara para o dia seguinte. Às vezes, até essa escrivaninha está tão desorganizada que você tem dificuldade de terminar uma atividade simples. Senta para fazer uma coisa, lembra de outra, pega o celular, perde tempo, retorna ao trabalho e já nem sabe direito por onde deveria continuar.
O que fazer, então? Comece pela escrivaninha. Em outras palavras, use a atenção e o tempo de que dispõe agora. Se você consegue separar um período para ler, leia. Se precisa começar com uma passagem menor para examiná-la com cuidado, faça isso. Se tem um intervalo no trabalho ou alguns minutos de silêncio em casa, pode usá-los para recordar o que aprendeu, orar e julgar biblicamente uma preocupação concreta. Não espere uma condição ideal que talvez nunca venha. A responsabilidade de hoje precisa ser cumprida nas condições de hoje.
E, enquanto usa esse espaço, comece a organizar o restante da biblioteca. Examine o que você costuma ler, ouvir e assistir. Pergunte que tipo de pensamento esses conteúdos incentivam e por que você lhes dedica tanta atenção. Certos conteúdos são legítimos, mas ocupam mais tempo do que deveriam. Outros precisam ser abandonados porque alimentam o pecado ou consomem um tempo que você deveria usar melhor. Não basta acrescentar uma leitura bíblica à rotina e continuar alimentando, sem qualquer critério, os mesmos hábitos que prejudicam sua atenção e sua vida espiritual.
O objetivo do exemplo é aprender a usar progressivamente mais da própria atenção para pensar de acordo com as Escrituras, de modo que o cristão passe a reconhecer erros que antes aceitava, formular perguntas melhores, examinar suas decisões e recordar com mais facilidade o que Deus revelou. E isso precisa ser exercitado na vida comum, quando está estudando, trabalhando, educando os filhos, conversando com a esposa ou enfrentando algum problema que preferiria evitar.
Aqui entra uma responsabilidade que, sinceramente, costuma ser tratada com muita moleza. Se você percebe que precisa ler mais a Bíblia, leia mais a Bíblia; se sabe que tem negligenciado a oração, volte a orar. Se a sua atenção está tão acostumada a distrações que uma leitura atenta se tornou difícil, exercite essa atenção. Faça com seriedade, mesmo quando não estiver com vontade. A ausência de disposição não transforma uma obrigação em algo opcional. A perseverança cristã exige que a pessoa combata suas inclinações pecaminosas, inclusive quando seria mais agradável continuar fazendo exatamente o que já faz.
Talvez seja útil ouvir uma pregação bíblica em um horário que você normalmente desperdiçaria. Talvez seja necessário desligar o celular, separar um lugar mais silencioso, ler em voz alta, anotar o que compreendeu ou usar um cântico de conteúdo fiel às Escrituras para orientar a oração. Não tenho problema com esses recursos, desde que se entenda para que servem. O cântico tem palavras. A pregação comunica proposições. A leitura exige compreensão. A oração envolve pensamentos que são dirigidos a Deus. A preocupação principal está no conteúdo que você passa a considerar e nas verdades que aprende a reconhecer, e não na produção artificial de alguma sensação religiosa.
Também não pretendo ensinar que a disciplina, por si mesma, produz a vida espiritual. É Deus quem santifica seu povo, e o faz pelo Espírito, segundo sua Palavra, de modo que o cristão deve obedecer, usar diligentemente os meios que Deus lhe deu e depender inteiramente da graça divina. Por isso, seja diligente sem confiar em sua própria capacidade, e jamais use a dependência da graça como desculpa para a negligência. Colossenses 3:2 ordena que o cristão pense nas coisas do alto. Essa ordem exige obediência e reconhecimento de sua dependência do Senhor.
E perceba o quanto isso é concreto. Um homem chega irritado do trabalho e responde mal à esposa. Depois diz que estava cansado. O cansaço pode explicar parte das circunstâncias, mas não justifica a ofensa. Ele precisa examinar como interpretou o que ouviu, por que decidiu responder daquela maneira e qual mandamento desobedeceu. Um pai se irrita com os filhos porque eles interromperam seu descanso. Pode ser que ele realmente precise descansar, mas também precisa julgar se está tratando os filhos com justiça. Um estudante passa horas consumindo coisas inúteis e reclama que não consegue aprender. Nesse caso, antes de inventar uma explicação complicada, convém olhar para seus hábitos e para a maneira como administra o tempo.
São situações comuns, eu sei, mas o que espero do cristão é justamente que ele tenha condições de aplicar aquilo que confessa a essas situações. Conhecer a doutrina da providência e viver dominado pela ansiedade, sem jamais examinar as próprias crenças, indica que há algo a ser trabalhado. Confessar a soberania de Deus e agir como se tudo dependesse exclusivamente da própria vontade também exige correção. Saber que Deus ordena o amor ao próximo e, ainda assim, justificar continuamente a impaciência com a família é outra incoerência. O entendimento precisa ser usado para reconhecer essas faltas, confessá-las e agir em obediência.
Lembro que um dos primeiros livros que recebi de um irmão que já tinha bastante experiência na fé reformada foi Pensando Espiritualmente, de John Owen, publicado em português pela PES.1John Owen, Pensando Espiritualmente, PES, edição brasileira condensada de The Grace and Duty of Being Spiritually Minded. Referência bibliográfica conferida em informações da edição brasileira. Trata-se de uma versão condensada de uma obra maior, The Grace and Duty of Being Spiritually Minded, cuja discussão se concentra especialmente em Romanos 8:6. Foi uma leitura muito importante para mim, e na época escrevi bastante enquanto lia, porque aquela exposição me fez considerar com maior seriedade a responsabilidade de pensar espiritualmente. Mais tarde, aprendi outras coisas, desenvolvi melhor algumas distinções e passei a examinar o assunto por uma perspectiva filosófica mais definida. O que aprendi depois não diminui a importância daquela leitura. O livro de Owen me ajudou a perceber, quando ainda precisava aprender muito, que a vida cristã exige atenção àquilo que se passa no entendimento, razão pela qual, quando trato hoje da racionalidade humana, das proposições, da vontade e da suficiência das Escrituras, continuo considerando importante aquela preocupação pastoral que encontrei nessa obra.
Por isso volto à questão inicial. Você se diz cristão, reconhece a autoridade da Palavra e confessa Jesus Cristo como Senhor. Pois então examine aquilo em que pensa. Examine o que aceita como verdadeiro, o que considera desejável, aquilo que teme, as razões pelas quais decide e as desculpas que costuma dar a si mesmo. Quando encontrar pensamentos contrários à Escritura, corrija-os. Quando reconhecer pecado, confesse-o e abandone-o. Quando perceber ignorância, estude. Quando estiver sem disposição para cumprir uma obrigação, peça auxílio a Deus e cumpra o que lhe cabe fazer.
O senhorio de Jesus Cristo alcança o homem inteiro, incluindo aquilo que ele pensa. Eu insisto nesse ponto porque é possível falar de espiritualidade durante anos e continuar tratando o entendimento como se fosse uma parte secundária da vida cristã, apesar de Paulo ordenar que o cristão pense nas coisas do alto, tenha seu entendimento renovado e submeta seus pensamentos à obediência de Cristo. Essas ordens precisam ser recebidas com a mesma seriedade dedicada a qualquer outro mandamento do Senhor.
Portanto, comece pelo que você já sabe que precisa corrigir e use a Palavra para examinar o que ainda não compreendeu. Não espere sentir uma disposição extraordinária para estudar, orar ou abandonar um hábito pecaminoso, pois você deve fazer o que precisa ser feito, com dependência de Deus e disposição para aprender. E, conforme conhecer melhor as Escrituras, procure aplicá-las com maior consciência às circunstâncias que enfrenta, porque glorificar a Deus envolve aquilo que você crê, aquilo que deseja e aquilo que efetivamente faz.
Notas
John Owen, Pensando Espiritualmente, PES, edição brasileira condensada de The Grace and Duty of Being Spiritually Minded. Referência bibliográfica conferida em informações da edição brasileira.
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