Destrói-os na tua verdade — Salmo 54:5

Reflexões · Escrita

Para que eu escrevo?

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Desde muito cedo eu percebi que minha memória não funcionava como eu gostaria. Sempre tive muita dificuldade para memorizar alguma coisa apenas por repetição, e isso ficava ainda mais evidente quando eu me comparava com colegas que estudavam uma tarde, aprendiam uma regra gramatical ou um procedimento de matemática e seguiam em frente, enquanto comigo, dependendo do assunto, aquilo exigia dias e muitas retomadas. Eu precisava repetir, procurar outra explicação e, principalmente, encaixar o que estava estudando em alguma sequência que fizesse sentido.

Essa última parte sempre fez diferença. Eu conseguia lembrar melhor quando entendia por que uma coisa vinha depois da outra, qual era o contexto histórico, de onde determinada conclusão havia sido tirada ou quais passos eram necessários para chegar até ela; por isso História ficava um pouco mais fácil quando eu conseguia organizar os acontecimentos em sequência, e mais tarde percebi o mesmo em filosofia, teologia e lógica. Uma afirmação isolada era difícil de guardar, mas eu conseguia recuperar muita coisa quando entendia as relações que aquela afirmação tinha com outras.

Na escola isso me atrapalhou bastante. Nunca fui um bom aluno, e seria falso colocar tudo na conta da memória, porque muitas vezes também faltava esforço e vontade, mas a dificuldade estava ali. Eu via outras pessoas aprendendo certas coisas com relativa facilidade e sabia que comigo o processo seria mais demorado.

Quando Deus me converteu, essa dificuldade passou a me incomodar por outro motivo, porque eu queria conhecer a Escritura, lembrar dos textos, entender os conceitos, relacionar passagens e conseguir recuperar aquilo depois. Eu via irmãos memorizando versículos e falando de determinados assuntos com uma facilidade que eu não tinha, e como eu já cria que a Escritura é a Palavra de Deus, inerrante, perfeita e suficiente para aquilo que Deus determinou que ela nos ensinasse, havia uma razão muito maior para me dedicar à leitura. Se eu já queria guardar pelo menos a essência de um bom livro, o que dizer de um texto que eu cria ter sido dado pelo próprio Deus?

Passei então a ler muito. A leitura bíblica ocupava uma parte importante do meu dia, mas o estudo continuava depois com teologia, filosofia, história, comentários, artigos e qualquer outra coisa que me ajudasse a compreender melhor um assunto, de modo que o problema se tornou bastante prático: quanto mais eu estudava, mais material precisava guardar, e minha memória continuava sendo a mesma. Comecei a anotar porque, se eu não conseguia manter tudo na cabeça, pelo menos podia registrar e voltar depois.

Nunca fui especialmente apegado à escrita à mão. Uso computador desde criança e sempre tive mais facilidade para escrever no teclado, então passei por Word, Facebook, blogs, fichas, fichamentos e cadernos, tentando descobrir uma forma de registrar o que eu estudava e o que eu pensava. No Facebook, inclusive, perdi uma quantidade enorme de textos, porque escrevia respostas, publicações, discussões inteiras em grupos e comentários longos; hoje penso que boa parte daquilo, se tivesse sido devidamente guardada e organizada, talvez correspondesse a vários livros de material bruto.

Os blogs também apareceram nesse período, mas eu nunca conseguia mantê-los por muito tempo. Eu gostava de escrever e já escrevia bastante, só que ainda dependia demais da resposta das pessoas, de modo que, quando não havia correspondência, eu perdia parte da vontade de continuar. Hoje vejo isso como uma infantilidade minha, porque eu ainda não tinha entendido plenamente para que a escrita me servia.

Durante algum tempo tentei manter um sistema híbrido: fazia anotações no papel, fichava livros, escrevia no computador e depois reunia o material. O problema era que quase tudo que eu queria usar terminava no computador de qualquer maneira, porque, se eu preparava alguma coisa para a igreja, escrevia para alguém, montava um artigo ou tentava trabalhar num livro, precisava digitalizar as anotações físicas para pesquisar, copiar, reorganizar e relacionar aquilo com outras coisas que eu já tinha guardado.

O Kindle ajudou bastante porque reduziu uma etapa. Eu podia marcar o que estava lendo e depois levar aquelas marcações para o computador; quando passei a usar computador, celular e Kindle conectados pela nuvem, comecei a tratar minhas anotações de outra maneira, e o Obsidian resolveu uma parte importante do problema porque me permitiu ligar notas entre si. Foi nesse período que conheci e adaptei o método Zettelkasten, do qual me interessava especialmente uma ideia simples: manter notas pequenas, relativamente independentes, cada uma tratando de um assunto e ligada a outras notas relacionadas.

Comecei a juntar marcações do Kindle, pensamentos que surgiam durante a leitura, observações de cursos, vídeos, artigos, livros paralelos e qualquer coisa que pudesse ser útil para um tema que eu estivesse estudando. Isso melhorou muito meu sistema, mas trouxe um problema bastante óbvio: eu tinha cada vez mais notas, e notas sozinhas ainda exigiam trabalho para que eu entendesse depois o que estava pensando quando as escrevi. Comecei então a resumir livros, reunir notas relacionadas e escrever sínteses maiores; algumas ficaram no Obsidian, outras foram parar no Word, e outras ainda devem estar perdidas em alguma pasta da nuvem ou no Notion, porque durante muito tempo eu tinha a péssima habilidade de testar uma ferramenta nova antes de terminar de retirar minhas coisas da antiga.

Até hoje acontece de eu lembrar de alguma coisa que escrevi e pensar: “Isso está em algum lugar.” Agora, pelo menos, quase sempre consigo encontrar.

Com o tempo, essas sínteses ficaram maiores e mais organizadas. Algumas já tinham começo, desenvolvimento e conclusão, e em vez de apenas registrar uma observação sobre determinado tema, eu começava a expor o assunto pensando em alguém que precisasse compreender aquilo; quando montei meu site, esse processo ganhou uma finalidade mais definida, porque eu podia transformar parte do material em artigos e deixar tudo acessível num lugar só. Depois de muitos anos estudando, anotando, errando na organização e tentando escrever, percebi que já conseguia pegar uma quantidade grande de material, organizar as relações entre as ideias e escrever uma exposição extensa sem começar tudo do zero. Foi nesse ponto, depois de anos acumulando e reorganizando material, que comecei a escrever livros.

Hoje, quando me interesso seriamente por um tema, normalmente não fico satisfeito com uma leitura rápida. Leio livros, artigos e publicações, volto às fontes, comparo formulações, faço marcações e registro o que considero importante; às vezes concentro tudo numa nota grande, em outras situações espalho o material por várias notas menores, cada uma referente a uma questão específica. No fim desse processo tenho citações referenciadas, observações minhas, relações entre autores e conclusões que já pensei durante a pesquisa, de modo que, quando começo a escrever, posso estar diante de um documento vazio, mas não estou começando do zero.

Eu já sei o que penso sobre boa parte do assunto, sei onde preciso confirmar uma referência e sei quais problemas ainda preciso resolver. Escrever, nesse caso, é colocar em ordem aquilo que já estudei e verificar durante a própria redação se as relações que estabeleci realmente se sustentam, porque algumas vezes só percebo uma lacuna quando tento explicar a questão inteira em sequência.

É nesse sentido que respondo à pergunta do título: escrevo, em primeiro lugar, para ter um repositório externo da minha própria memória.

Não quero substituir a memória por arquivos. O que acontece comigo é que, quando registro bem uma ideia, consigo voltar até ela com muito menos esforço e, ao reler algumas linhas, recuperar uma quantidade maior de coisas associadas àquele assunto; o texto me dá um ponto concreto de retorno, e isso me livra da obrigação de reconstruir tudo a partir de uma lembrança vaga. Talvez outra pessoa precise disso em grau menor; no meu caso, dependo bastante desse retorno ao texto.

A lógica teve um papel importante nesse processo. Conforme fui estudando mais lógica, comecei a perceber que muitas vezes recuperava uma ideia pelas consequências que eu mesmo já havia deduzido dela: alguém me pergunta alguma coisa, eu lembro de uma parte do argumento e começo a reconstruir a sequência, porque, se isso é verdadeiro, então aquilo se segue; se aquilo se segue, lembro por que eu havia rejeitado determinada resposta; e daí consigo localizar mentalmente a discussão original antes de voltar à fonte para conferir.

Não sei se isso funciona da mesma maneira para outras pessoas, mas comigo acontece com bastante frequência. Minha memória nem sempre me entrega a formulação inteira, porém me entrega partes suficientes para que eu reconstrua o raciocínio, e quando tenho uma nota, um artigo ou um capítulo já escrito, posso conferir essa reconstrução em vez de depender dela como se minha lembrança fosse infalível. Por isso a escrita me ajuda a lembrar justamente porque não me obriga a confiar apenas na memória.

Alguns dos meus livros começaram desse modo. Às vezes estou lendo alguma coisa e lembro de uma discussão antiga, então penso: “Espera aí. Isso se relaciona com aquilo, que se relaciona com aquela outra coisa que eu já tinha estudado.” Volto às fontes, recupero minhas anotações, confiro o que lembrava e percebo que já existe material suficiente para organizar uma exposição maior.

Foi o que aconteceu com Contra Olavo de Carvalho. A ideia inicial apareceu quando comecei a relacionar coisas que já estavam separadas na minha cabeça; retornei ao livro de Ronald Robinson, aos conceitos de Olavo, às transcrições das aulas, às próprias aulas e aos vídeos, e fui confirmando cada relação antes de escrever. Eu não tinha sentado com um plano pronto para produzir um livro. Comecei conferindo coisas que já havia pensado anteriormente e, quando organizei o material, percebi que havia uma discussão extensa o bastante para ser desenvolvida como livro.

Com o livro Contra Tomás de Aquino aconteceu algo parecido. Eu já tinha boa parte daquela discussão organizada mentalmente e, em determinado momento, lembrei de um argumento de Clark e de uma citação de Tomás, percebi novamente a relação entre os dois, voltei aos lugares em que sabia que encontraria cada coisa, reli, confirmei e escrevi. Contra Roma teve outro processo, porque ali comecei pesquisando um assunto mais limitado, encontrei material demais para resolver a questão rapidamente e continuei lendo; a cada etapa havia novas fontes e novas relações que precisavam ser examinadas, até que reuni material suficiente para uma exposição contínua e comecei a escrever os capítulos enquanto a pesquisa prosseguia.

Lógica para os Cristãos seguiu um caminho próprio. Eu estava lendo Clark e comecei a pensar em maneiras de explicar algumas formulações com mais clareza para o tipo de leitor que eu tinha em mente [digo, eu], então escrevi uma parte, depois outra, reorganizei a ordem, retirei coisas, acrescentei outras e revisei várias vezes. O plano mudou durante o trabalho, e o livro que inicialmente teria menos capítulos terminou com treze porque, quando organizei tudo, percebi que algumas questões precisavam ser separadas e desenvolvidas com mais espaço.

Esses exemplos me ajudam a entender algo que demorei para perceber: eu escrevo mesmo quando ainda não sei se vou publicar. Muitas vezes escrevo para entender melhor o que penso e para preservar esse entendimento de uma forma que eu possa consultar depois, de modo que a publicação pode vir mais tarde, mas o primeiro leitor de muitos dos meus textos sou eu mesmo, inclusive anos depois de tê-los escrito.

Volto aos meus próprios livros e textos com frequência, inclusive aos que ainda não publiquei. Às vezes preciso recordar uma discussão, uma distinção ou uma fonte e sei que já trabalhei aquilo em algum lugar; em vez de recomeçar a pesquisa inteira, procuro o texto, leio alguns parágrafos e recupero boa parte do que havia estudado. Meus livros e meu site têm, para mim, essa função muito concreta: guardam parte do resultado das leituras que fiz, das relações que estabeleci, dos problemas que tentei resolver e das conclusões que considerei importantes o bastante para registrar, o que reduz a necessidade de depender da lembrança imediata para continuar um estudo.

Mas, se eu escrevesse apenas para mim, bastariam notas privadas. Quando transformo uma anotação em artigo ou livro, existe outra intenção, porque quero que aquilo seja útil para alguém, principalmente quando escrevo sobre teologia, Escritura, filosofia cristã ou alguma discussão que considero importante para a igreja. Eu sei quanto trabalho algumas questões me deram justamente por causa da minha dificuldade de memória, e talvez por isso eu tenha tanta preocupação em organizar, relacionar, explicar e deixar registrado; se um irmão puder usar esse material para compreender melhor uma doutrina, localizar uma fonte, responder uma objeção ou continuar um estudo que eu já comecei, então o tempo gasto ali serviu a alguém além de mim.

E há, claro, a polêmica. Também escrevo para combater ideias que considero falsas e prejudiciais à fé cristã, e não tenho problema algum em admitir isso: se depois de estudar um assunto concluo que determinada posição contradiz a Escritura ou produz confusão, gosto de colocar as razões por escrito para que qualquer pessoa possa conferir o que estou dizendo e responder ao argumento. Em alguns textos quero ensinar, em outros quero refutar, e muitas vezes faço as duas coisas porque uma boa refutação precisa explicar o que está errado e o que deve ser colocado no lugar.

Então, para que eu escrevo? Porque preciso lembrar, organizar, conferir e retornar ao que já estudei; porque minha memória sempre exigiu de mim mais trabalho do que eu gostaria; porque pensar por escrito me obriga a colocar relações em ordem; e porque depois posso voltar ao texto, conferir a fonte e retomar um assunto sem começar novamente do zero. Essa utilidade pessoal veio primeiro, mas hoje não é a única.

Escrevo também porque esse repertório pode servir a outras pessoas. Se aquilo que precisei estudar durante semanas, meses ou anos ajudar alguém a compreender melhor uma questão, fortalecer sua fé, corrigir um erro ou encontrar uma boa fonte, tenho uma razão adicional para transformar minhas anotações em algo legível e público. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para entender minha relação com a escrita. Primeiro passei a anotar para compensar o que esquecia; depois organizei o material; mais tarde comecei a escrever artigos para sintetizar o que estudava; e, quando alguns assuntos precisaram de uma exposição mais extensa, comecei a escrever livros.

Por isso, quando esqueço uma discussão, procuro a nota no Obsidian, o artigo no site ou o trecho no livro, releio o que registrei, confiro as referências e continuo o estudo dali.