Patrística
A doutrina cristã
Suponhamos que somos peregrinos, que não podemos viver felizes a não ser em nossa pátria. Sentindo-nos miseráveis na peregrinação, suspiramos para que o infortúnio termine e possamos enfim voltar à pátria. Para isso, seriam necessários meios de condução, terrestre ou marítimo. Usando deles poderíamos chegar a casa, lá onde haveríamos de gozar. Contudo, se a amenidade do caminho, o passeio e a condução nos deleitam, a ponto de nos entregarmos à fruição dessas coisas que deveríamos apenas utilizar, acontecerá que não quereríamos terminar logo a viagem. Envolvidos em enganosa suavidade, estaríamos alienados da pátria, cuja doçura unicamente nos faria felizes de verdade. É desse modo que peregrinamos para Deus nesta vida mortal (2Cor 5,6). Se queremos voltar à pátria, lá onde poderemos ser felizes, havemos de usar deste mundo, mas não fruirmos dele. Por meio das coisas criadas, contemplemos as invisíveis de Deus (Rm 1,20), isto é, por meio dos bens corporais e temporais, procuremos conseguir as realidades espirituais e eternas.
Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um deles, Deus. é os três são um só Deus. Para si próprio, cada um deles é substância completa e, os três juntos, uma só substancia.
Por não lhes ter servido, podem generalizar dizendo que não servirá a ninguém.
Aos que não entenderem o que escrevo, digo: Não me devem criticar pelo fato de não entenderem o que está exposto. Acontece tal como se desejassem contemplar a lua no início de sua fase ou já no fim do quarto minguante, ou talvez algum outro astro pouco luminoso que eu pretendesse lhes assinalar com o dedo. A eles, contudo, a pouca acuidade da vista não basta sequer para distinguir o meu dedo. Portanto, não é contra mim que deveriam se irritar.
Portanto, que uns e outros deixem de me reprovar e peçam a Deus que lhes dê luz aos olhos. Pois se está em meu poder erguer meu dedo para assinalar-lhes algo, não posso contudo iluminar-lhes os olhos com que contemplarão a minha própria explicação ou o que pretendo demonstrar.
Que não nos aconteça — ó enganados pela maldade e astúcia do inimigo — deixarmos de ir às igrejas para ouvir e aprender o evangelho; descuidarmos de ler o texto sagrado ou então desprezarmos de escutar o leitor ou o pregador. Que não esperemos precisar sermos arrebatados ao terceiro céu — em corpo ou fora dele —, como disse o Apóstolo, para ouvir palavras inefáveis que não é lícito ao homem repetir (2Cor 12,2-4), e ver ali o Senhor Jesus Cristo e ouvir o evangelho de seus próprios lábios, em vez de ser pela boca dos homens.
- Observamos que o apóstolo não enviou aquele eunuco, que nada entendia ao ler o profeta Isaías, a um anjo. Nem foi explicado por um anjo o que a sua mente não entendia. Ao contrário, sob a inspiração de Deus foi-lhe enviado Filipe, que conhecia bem o conteúdo da profecia de Isaías. Filipe sentou-se com o eunuco e manifestou-lhe, com linguagem e palavras humanas, o que se achava encoberto naqueles escritos (At 8,27-35). Não conversava Deus com Moisés? E entretanto, esse homem, muito sábio e nada orgulhoso, recebeu de seu sogro — sendo este homem simples e estrangeiro — o conselho de reger e governar aquele povo tão numeroso (Ex 18,14-26). Aquele varão sabia que de qualquer pessoa de quem procedesse conselho verdadeiro, não viria dessa pessoa humana, mas sim daquele que é a Verdade, isto é, do Deus imutável.
- Enfim, quem quer que se glorie de entender por dom divino, sem auxílio de normas humanas, as obscuridades que se encontram nas Escrituras, crê com razão, e é certo, que tal faculdade não é sua, como se viesse de si próprio, mas é poder doado por Deus. Assim julgando, há de buscar a glória de Deus e não a sua própria. Mas nesse caso, quando lê e entende sem explicação de outros, por qual motivo procura explicar aos outros? Por que não os remete diretamente a Deus, para que entendam também eles por si próprios? Deus os instruiria interiormente e não por meio de homens. Resolvem-se a explicar a outros talvez porque temem ouvir o Senhor lhes dizer: “Servo mau... devias ter depositado o meu dinheiro com os banqueiros” (Mt 25,26.27).
Posto que tudo o que é verdadeiro procede daquele que disse: “Eu sou a verdade” (Jo 14,6), que é que possuímos que não tenhamos recebido? E se o recebemos, por que haveríamos de nos ensoberbecer como se não o tivéssemos recebido? (1Cor 4,7).
Assim como quem aprendeu a ler, ao encontrar um livro, não necessita de algum leitor para entender o que lá está escrito, igualmente acontecerá com os que receberem as normas que intencionamos entregar. Ao encontrar algo obscuro nos Livros sagrados, observando as normas que lhes servirão como as letras do alfabeto, não precisarão de alguém para lhes descobrir o que estiver oculto. Observando certas regras, eles próprios chegarão sem erro a descobrir o sentido oculto. Pelo menos, não cairão no absurdo de alguma opinião errônea. Enfim,
- Há duas coisas igualmente importantes na exposição das Escrituras: a maneira de descobrir o que é para ser entendido e a maneira de expor com propriedade o que foi entendido.
Possuir algo que ao ser dado não se esgota e não reparti-lo com os outros não é possuir como convém. O Senhor disse: “Àquele que tem lhe será dado” (Mt 13,12). Deus dará, pois, aos que têm, isto é, fará crescer e multiplicar o que já deu aos que usarem com liberalidade daquilo que receberam.
Existem sinais, mas de outro gênero, cujo emprego se limita unicamente a significar algo, como é o caso das palavras (verba). Ninguém emprega as palavras a não ser para significar alguma coisa com elas. Daí se deduz que denomino sinais a tudo o que se emprega para significar alguma coisa além de si mesmo. É porque todo sinal é ao mesmo tempo alguma coisa, visto que, se não fosse alguma coisa, não existiria. Mas, por outro lado, nem toda coisa é ao mesmo tempo sinal.
- Fruir é aderir a alguma coisa por amor a ela própria. E usar é orientar o objeto de que se faz uso para obter o objeto ao qual se ama, caso tal objeto mereça ser amado. A uso ilícito cabe, com maior propriedade, o nome de excesso ou abuso.
Se queremos voltar à pátria, lá onde poderemos ser felizes, havemos de usar deste mundo, mas não fruirmos dele. Por meio das coisas criadas, contemplemos as invisíveis de Deus (Rm 1,20), isto é, por meio dos bens corporais e temporais, procuremos conseguir as realidades espirituais e eternas.
Não é fácil encontrar um nome que possa convir a tanta grandeza e servir para denominar de maneira adequada a Trindade. A não ser que se diga que é um só Deus, de quem, por quem e para quem existem todas as coisas (Rm 11,36).
- O Pai, o Filho e o Espírito Santo, isto é, a própria Trindade, una e suprema realidade, é a única Coisa a ser fruída, bem comum de todos.
No Pai está a unidade, no Filho a igualdade e no Espírito Santo a harmonia entre a unidade e a igualdade.
Não obstante, ainda que não se possa dizer coisa alguma digna de Deus, ele admite o obséquio da voz humana e quer que nos rejubilemos com nossas próprias palavras ao louvá-lo. É por isso que o chamamos de Deus. Na realidade, não o conhecemos pela vibração dessas duas sílabas: De-us. Contudo, quando esse som toca os ouvidos de todos os que conhecem o latim, ele leva a pensar em certa natureza soberana e imortal.
Por certo, os homens são movidos em direção aos bens, por diversos modos. Uns pelos sentidos do corpo e outros pela inteligência espiritual. Os que se confiam nos sentidos corporais julgam que o Deus dos deuses é o próprio céu ou o que de mais fulgurante aí vêem, ou até o próprio mundo. Mas se pretendem buscar a Deus além deste mundo, então imaginam-no algo luminoso, e graças a vã ficção, fazem-no infinito ou dotado de uma forma que lhes pareça superior a todas as outras. E caso não creiam na existência de um único Deus dos deuses, mas na existência de múltiplos e inumeráveis deuses da mesma ordem, representam-nos de tal modo em seu espírito, que lhes atribuem o traço físico que a cada um pareça o mais excelente. Aqueles, por outro lado, que são movidos pela inteligência a se representarem o que seja Deus, antepõem-no a todas as naturezas visíveis e corporais, assim como a todas as naturezas espirituais, inteligíveis e mutáveis. Todos, contudo, porfiam com afinco para dotarem Deus de excelência suprema. E não se pode encontrar pessoa alguma que pense haver um ser melhor do que Deus. Assim, todos pensam unanimente que Deus está acima de todas as coisas.
- Não existe ninguém tão insensato e imprudente que diga: E como sabes que a vida imutável e sábia deve ser preferida à mutável? Isso porque a resposta a essa questão — como sabes? — é comum e inegavelmente notória à constatação de todos. Quem não reconhecer tal verdade é como cego banhado pelo sol, a quem o fulgor de tanta claridade e luz, atuando em seus olhos, de nada lhe servem. Quem não obstante vê a luz, mas ainda assim ofusca-se com ela, é porque tem o olhar da mente enfermo pelo costume das sombras carnais. Pois os homens de costumes perversos são afastados de sua pátria por ventos contrários. Perseguem bens que são inferiores e preteríveis, em relação àqueles bens que eles próprios reconhecem como melhores e superiores.
Portanto, como estamos destinados a gozar sem fim dessa Verdade que vive imutavelmente e pela qual o Deus Trindade, autor e criador do mundo, cuida de sua criação, devemos purificar nosso espírito para que possa contemplar essa luz e a ela aderir quando contemplada. Podemos considerar essa purificação como uma caminhada e um navegar em direção a pátria. Não nos aproximamos, porém, daquele que está presente em toda a parte, mudando de lugares, mas pelos santos desejos e bons costumes.
11a. Ora, nós não conseguiríamos nos purificar se a própria Sabedoria não se houvesse dignado adaptar-se à nossa tão pequena fraqueza carnal, para tornar-se modelo de vida, precisamente fazendo-se homem, visto sermos nós homens. Mas ao passo que agimos sabiamente quando nos aproximamos da Sabedoria, ela, ao vir a nós, foi considerada, por homens soberbos, como realizadora de loucura. Enquanto nós nos fortificamos ao nos aproximar da Sabedoria, ela, ao se aproximar de nós, foi considerada como realizadora de ato de fraqueza. Contudo, o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1Cor 1,25).
11b. Se bem que a Sabedoria de Deus esteja presente em toda a parte aos olhos interiores puros e sãos, ela dignou-se também aparecer aos olhos carnais dos que têm a vista interior impura e enferma. Visto que o mundo por meio de sua própria sabedoria não pode reconhecer a Deus, aprouve a ele, na sua Sabedoria divina, pela loucura da pregação, salvar os que crêem (1Cor 1,21).
Em conclusão, o mundo não pôde conhecer a Deus pela sabedoria humana. Por que, pois, ele veio se já estava aqui, a não ser porque aprouve a Deus salvar os que creriam pela loucura da pregação? (1Cor 1,21).
12b. Como veio ele? “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Assim como, ao falarmos, o pensamento de nossa inteligência torna-se som, isto é, palavra sensível que penetra no espírito dos ouvintes pelos ouvidos corporais e, entretanto, esse som que trazemos no coração e é chamado linguagem, longe de se transformar nesse mesmo som, permanece íntegro em si próprio, revestindo a forma da voz para tocar o ouvido dos outros sem nenhum traço de alteração, assim a Palavra de Deus, sem mudar de natureza, fez-se carne para habitar entre nós.24
E assim como os médicos quando fazem curativos sobre as feridas não o fazem de modo inábil, mas com cuidado, de modo que a utilidade do curativo venha acompanhada de certa estética, do mesmo modo a medicina da Sabedoria divina tomando forma humana aplicou seu remédio a nossos males. Ela trata certas feridas com remédios contrários e outras com remédios semelhantes. Desse mesmo modo é que o médico cuida de uma lesão do corpo empregando certos elementos contrários, como o frio contra o calor, o úmido contra o seco, ou ainda servindo-se de procedimentos de gênero semelhante. Assim, vemos o médico empregar certos produtos que se assemelham ao mal, como curativo redondo para uma ferida circular, alongado para uma chaga longa. Ele não faz enfaixamento igual em todos os membros, mas ajusta elementos semelhantes às coisas semelhantes (similem similibus). Ora, a Sabedoria divina não age de modo diferente quando cuida do homem. Apresentou-se em pessoa para curá-lo. Ela própria é o médico e ao mesmo tempo o remédio.
Eis agora os remédios semelhantes aplicados como ataduras a nossos membros e a nossas feridas: Nascido de uma mulher, ele libertou aqueles que tinham sido enganados por uma mulher. Homem, libertou os homens. Mortal, libertou os mortais. Morto, libertou os mortos. A economia da medicina cristã pode apresentar ainda muitos outros remédios tirados, seja dos contrários, seja dos semelhantes. Reflexão boa para os amigos da meditação e para quem não urge, como para mim, a necessidade de prosseguir o trabalho encetado.
- De tudo o que expusemos deduz-se que devemos gozar unicamente das coisas que são bens imutáveis e eternos. Das outras coisas devemos usar para poder conseguir o gozo daquelas.
consagra teus pensamentos e toda tua vida e toda tua mente àquele de quem recebeste estes bens. Porque quando é dito “de todo teu coração, de toda tua alma e de toda tua mente”, não te é permitido nenhuma parte de tua vida ficar desocupada para que possas gozar de outro objeto. Exige, antes, que qualquer outro objeto que venha à mente para ser amado seja arrastado naquela mesma direção do caudal impetuoso do amor. Logo, quem ama retamente o seu próximo deve tratar que esse alguém também ame a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu espírito.
Quatro são os objetos que devemos amar: o primeiro está acima de nós; o segundo somos nós próprios; o terceiro o que se acha a nosso lado; o quarto o que está abaixo de nós. A respeito do segundo e do quarto não foi necessário serem dados preceitos. Pois, por muito que o homem se afaste da verdade, sempre lhe ficará o amor a si próprio e o amor a seu corpo. Porque o espírito que foge à luz imutável que reina sobre todas as coisas, o faz para ser senhor de si mesmo e do próprio corpo. Por conseguinte, não pode deixar de amar-se a si mesmo e ao próprio corpo.
- Ninguém odeia a si próprio. A respeito disso, controvérsia alguma tem surgido em escola nenhuma. Ninguém odeia seu próprio corpo, e o que diz o Apóstolo é bem verdade: “Ninguém jamais quis mal à sua própria carne” (Ef 5,29). Logo, quando alguns dizem que prefeririam viver sem o corpo, enganam-se inteiramente. Porque não é a seu corpo, mas à corrupção corporal e seu pesado fardo que eles odeiam. Assim, o que eles quereriam, sem dúvida, não é ficar sem corpo, mas tê-lo incorruptível e perfeitamente ágil. O engano procede de que pensam que um corpo dessa espécie sutil não mais existiria, pois tais qualidades só pertencem à alma, a seus olhos.
- Os que fazem essas mortificações com má intenção declaram guerra a seu corpo como se ele fosse inimigo natural. Não entenderam ao ler as palavras: “A carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõem reciprocamente” (Gl 5,17). Na verdade, isso foi dito desse modo por causa dos hábitos indomados da carne, contra os quais o espírito luta, não para a destruição do corpo. Foi para submeter o corpo ao espírito, depois de o ter domado, como reclama a ordem da natureza.
Logo, o espírito trabalha para domar a carne, em vista de romper, por assim dizer, o pacto perverso do mau hábito e para estabelecer a paz, fruto de uma boa harmonia.
- É preciso, pois, ensinar ao homem a medida de seu amor, isto é, a maneira como deve amar-se a si próprio, para que esse amor lhe seja proveitoso. Duvidar de que ele se ama e deseja o próprio bem é pura demência. É preciso também ensinar ao homem como deve amar seu corpo, para que tome cuidado dele, com ordem e prudência. Porque o fato de o homem usar seu corpo e desejar conservá-lo sadio e intato é verdade bem manifesta. Alguém pode, é certo, amar um bem maior do que a saúde e a integridade de seu corpo. Encontram-se, com efeito, pessoas que enfrentaram voluntariamente dores e perda de algum de seus membros para obter outro bem ainda mais cobiçado. Guardemo-nos, porém, de dizer que o homem não ama a saúde e a integridade do corpo, pelo fato de existir alguém que tenha amado mais alguma outra coisa. Vemos que até o avarento, ainda que amando o dinheiro, não deixa de comprar o seu pão. E ao fazê-lo, gasta aquele dinheiro que muito ama e deseja aumentar. Só que acima do dinheiro, ama a sua saúde que é sustentada por aquele pão. Seria supérfluo discutir mais longamente sobre assunto de tanta evidência. Entretanto, fomos levados a fazê-lo pelo erro dos ímpios.
Ora, se tu te consideras por inteiro, isto é, alma e corpo, e se consideras o próximo por inteiro, isto é, alma e corpo (porque o homem consta de corpo e alma),26 observarás que nenhuma categoria de objeto a amar foi omitida nesses dois preceitos.
- Vive justa e santamente quem é perfeito avaliador das coisas. E quem as estima exatamente mantém amor ordenado. Dessa maneira, não ama o que não é digno de amor, nem deixa de amar o que merece ser amado. Nem dá primazia no amor àquilo que deve ser menos amado, nem ama com igual intensidade o que se deve amar menos ou mais, nem ama menos ou mais o que convém amar de forma idêntica. O pecador, contudo, enquanto pecador, não merece ser amado: mas todo homem, enquanto tal, deve ser amado por causa de Deus. Deus, porém, por si próprio é digno de amor. E já que Deus deve ser amado mais do que todos os homens, cada um deve amar a Deus mais do que a si próprio. Da mesma forma, deve-se amar o nosso próximo mais do que a nosso corpo, porque todas as coisas hão de ser amadas por Deus, e o próximo pode gozar de Deus conosco, ao passo que não o pode nosso corpo. Pois o corpo vive da alma e é por ela que gozaremos de Deus.
- Todos devem ser amados de forma igual. No entanto, já que não podemos ser úteis a todos indistintamente, devemos atender de modo especial aos que nos estão mais ligados pelas circunstâncias concretas de tempo e de lugar, ou por quaisquer outras, de ordem diferente. Isso, por assim dizer, como se fosse por sorteio.
Mas devemos querer acima de tudo que todos amem a Deus conosco, e que toda ajuda que lhes dermos ou que deles recebermos seja orientada para essa única finalidade.
Daí segue que devemos amar até nossos inimigos. Nós não os tememos, na verdade, visto que não podem nos tirar aquele a quem amamos. Mas nós nos compadecemos deles, porque nos odeiam, tanto mais quanto estão distantes do objeto de nosso amor. E se acaso voltassem a ele, necessariamente amá-lo-iam, como o Bem beatificante, e a nós, como co-participantes de tão grande bem.
- É o que ensina o apóstolo Paulo ao dizer: “Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e todos os outros preceitos se resumem nesta sentença: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo” (Rm 13,9.10). Logo, quem quer que pretenda que o Apóstolo não nos deu aqui preceito que se aplica a todos os homens, ver-se-á obrigado a confessar as mais absurdas coisas e abomináveis, tais como: que o Apóstolo não considerou ser pecado algum cometer adultério com a mulher de não-cristão ou a de inimigo, ou ainda o fato de matá-lo ou cobiçar os seus bens. Se isso é loucura, é evidente que é a todo homem que se há de considerar como próximo, visto que não se há de fazer o mal a ninguém.
Pois todo bem que está em nós, ou é ele próprio ou procede dele. E, pois, como dizer que a luz tem necessidade do brilho dos seres que ela ilumina com seus raios?
Além do mais, é por ele ser justo que não podemos ser maus impunemente. À medida que somos maus, nós temos menos ser. Pois somente possui o ser, sumo e primeiro, aquele que é absolutamente imutável e que pôde dizer em toda plenitude: “Eu sou aquele que sou” e “Assim lhes dirás: Aquele que é enviou-me a vos” (Ex 3,14). Portanto, todos os outros seres que não ele, não podem existir a não ser por ele. E só são bons à medida que receberam o ser. Conseqüentemente, o uso que se diz Deus fazer de nós não se ordena à sua própria utilidade, mas à nossa, e manifesta a sua bondade, unicamente.
- Se nós referimos o gozo mútuo somente a nós próprios, depositamos a esperança da felicidade no homem ou no anjo, e permanecemos parados no caminho. Tal é a conduta dos homens e anjos soberbos que se alegram de ver depositada neles a esperança das demais criaturas. Ao contrário, o homem justo e os santos anjos, quando nos vêem cansados e desejosos de repousar e deter-nos neles, reconfortam-nos com os bens que receberam para serem empregados em nosso favor, ou com os bens que receberam para si próprios. Esses bens, entretanto, não procedem deles. E após nos terem reconfortado, incitam-nos a prosseguir o caminho para a pátria, onde seremos felizes, gozando com eles. Assim exclama o Apóstolo: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor? Ou fostes batizados em nome de Paulo?” (1Cor 1,13). “Assim, pois, aquele que planta, nada é, aquele que rega, nada é, mas importa tão-somente Deus, que dá o crescimento” (1Cor 3,7). Lemos igualmente, no Apocalipse, que o anjo, a quem um homem adorava, adverte-o: “Não adores a mim, adora antes a Deus, porque eu também estou abaixo dele, e ambos somos seus servos” (Ap 19,10).
- Se te deleitas desse modo no convívio com o homem em Deus, antes gozas de Deus do que do homem. Gozas do bem pelo qual chegarás a ser feliz. E um dia, alegrar-te-ás por teres chegado àquele em quem puseste a esperança de ser feliz. Por isso diz são Paulo ao escrever a Filêmon: “Sim, irmão, eu gozarei de ti no Senhor” (Fm 20). Se ele não tivesse acrescentado “no Senhor” e houvesse apenas dito: “Gozarei de ti”, teria posto nele a esperança de sua felicidade.
- Notai o seguinte: a própria Verdade, o Verbo por quem foram feitas todas as coisas, se fez carne para habitar entre nós (Jo 1,3.14). E, contudo, diz o Apóstolo: “Mesmo se conhecemos Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim” (2Cor 5,16). Por certo, ele quis não somente dar-se como herança aos que chegam à pátria, mas também oferecer-se como caminho aos que encetam a caminhada para lá. Ele próprio decidiu assumir nossa carne. Nesse sentido está a palavra: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos” (Pr 8,22), para dar a entender que, por Cristo, caminham os que querem chegar a Deus.
É nesse sentido que o Senhor diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), isto é, por mim se vem, a mim se chega, em mim se permanece. Chegar até ele, com efeito, é chegar também ao Pai. Pois por ele se conhece aquele que lhe é igual. E o Espírito Santo nos liga, por assim dizer, nos aglutina, a fim de nos dar a possibilidade de permanecermos unidos ao sumo e imutável Bem. Compreende-se por aí que coisa alguma deve deter-nos na caminhada, visto que o próprio Senhor, à medida que se dignou ser nosso caminho, não quis que nos detivéssemos nele, mas que passássemos além. E o fez para que longe de nos apegar por fraqueza às coisas temporais, que ele empreendeu e realizou em vista de nossa salvação, corramos com diligência através delas, para merecermos nos adiantar e chegar até aquele que libertou nossa natureza do jugo das coisas temporais e assentou-a à direita do Pai.
Ora, em vista de nos fazer conhecer esse amor, e de no-lo tornar possível, é que a divina Providência criou para nossa salvação toda a economia temporal da qual devemos usar, não com amor e alegria permanentes, mas antes como algo transitório, tal como estando em viagem, num veículo ou não importa em que outro meio de transporte que se possa nomear com maior propriedade. Portanto, amemos esses objetos que nos levam ao fim último, por causa do mesmo fim aonde somos levados.
- Se alguém julga ter entendido as Escrituras divinas ou partes delas, mas se com esse entendimento não edifica a dupla caridade — a de Deus e a do próximo —, é preciso reconhecer que nada entendeu. Mas quem tira de seu entendimento uma idéia útil para a edificação da caridade, ainda que sem trazer o pensamento próprio do autor, na passagem em estudo, ousarei dizer que não comete erro pernicioso, nem diz mentira.
Ora, todo aquele que mente comete injustiça. E se alguém pensar que a mentira pode ser, em algum caso, de utilidade, poderá também admitir que a injustiça é igualmente útil. Todo mentiroso atenta contra a fé, porque quer obtê-la daquele a quem engana — no momento mesmo em que está a violá-la. Todo violador da fé é injusto.
41a. Em todo caso, todo aquele que nas Escrituras entende de modo diferente ao do autor sagrado engana-se em meio mesmo da verdade, visto que as Escrituras não mentem.27
41b. Afirmando levianamente um pensamento que o autor sagrado não teve, o pregador cai, na maior parte do tempo, em opiniões diversas que poderão discordar com as do original. Ora, se ele julga serem verdadeiras e certas as suas próprias idéias, não o seriam as da Escritura. E pode acontecer que, amando mais seu próprio parecer, ele condene a Escritura e não a si próprio. E caso ele permita que esse mal se estenda, encontrará aí a sua própria perdição. Lembremo-nos de que “caminhamos pela fé, e não pela visão da verdade” (2Cor 5,7). Ora, a fé cambaleará se a autoridade das Escrituras vacilar. E cambaleando a fé, a caridade, por sua vez, enfraquecer-se-á. Pois diminuir a fé necessariamente é diminuir também a caridade. Realmente, ninguém pode amar o que não crê que exista. Ao contrário, se ao mesmo tempo, ele crê e ama, fazendo o bem e conformando-se aos preceitos e bons costumes, sente nascer em si a esperança de chegar ao que ama. Eis por que existem essas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade. Elas encerram toda a ciência e toda a profecia.
- Ora, à fé sucederá a clara visão que teremos na vida futura. À esperança sucederá a posse da própria beatitude à qual haveremos de chegar. Quanto à caridade, crescerá sempre, ainda depois que desapareçam as duas primeiras virtudes.
Se apenas ao crer amamos o que ainda não vemos, quanto mais amaremos quando começarmos a ver! E se, apenas ao esperar, amamos o que ainda não obtivemos, quanto mais amaremos quando o possuirmos! Quanta diferença entre as coisas temporais e as eternas! Um bem temporal é mais amado antes de ser possuído. Depois, porém, perde seu valor, pois não saciou a alma para a qual o eterno somente é o verdadeiro e seguro descanso. O bem eterno, ao contrário, é amado com tanto maior ardor ao ser possuído do que fora ao ser desejado. Pois a ninguém que a deseja, a beatitude concedida é menor do que a desejada. Logo, não poderá sentir-se decepcionado quem a encontrar, pois não será inferior à idéia que dela se fizera. Por mais alto que alguém queira tê-la imaginado, mais preciosa achará quando a abraçar.
- Concluímos, pois, afirmando que todo aquele que houver entendido ser o fim da lei “a caridade procedente de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia” (1Tm 1,5), e quem refere toda a compreensão das divinas Escrituras a essas três disposições, poderá abordar com segurança o estudo dos Livros sagrados.
Ao nomear “a caridade”, o Apóstolo acrescentou “que procede de um coração puro”, para dar a entender que não se ame nada além do que merece ser amado. Acrescentou ele ainda “uma boa consciência”, em vista da esperança. Porque quem sente o remorso de má consciência desespera de chegar ao que crê e ama. Por fim, o Apóstolo exige “uma fé sem hipocrisia”. Porque quando nossa fé está ao abrigo da mentira, nós amamos o que deve ser amado e levamos vida reta e esperamos que nossa esperança não seja defraudada de modo algum.
sinal é, portanto, toda coisa que, além da impressão que produz em nossos sentidos, faz com que nos venha ao pensamento outra idéia distinta. Assim, por exemplo, quando vemos uma pegada, pensamos que foi impressa por animal. Ao ver fumaça, percebemos que embaixo deve haver fogo. Ao ouvir a voz de um ser animado, damo-nos conta do estado de seu ânimo. Quando soa a corneta, os soldados sabem se devem avançar, retirar-se ou fazer alguma outra manobra, exigida pelo combate.
- Entre os sinais, alguns são naturais e outros convencionais. Os naturais são os que, sem intenção nem desejo de significação, dão a conhecer, por si próprios, alguma outra coisa além do que são em si. Assim, a fumaça é sinal de fogo. Ela o assinala sem ter essa intenção, mas nós sabemos, por experiência, observando e comprovando as coisas, que ao aparecer a fumaça haverá fogo embaixo.
Com o movimento das mãos, algumas pessoas exprimem a maior parte de seus sentimentos. Os cômicos, com o movimento de todos os seus membros, dão certos sinais aos espectadores e como que falam a seus olhos. Os estandartes e insígnias militares declaram aos olhos a decisão dos chefes. De modo que todos esses sinais são como palavras visíveis.
- Os que lêem a Escritura inconsideradamente enganam-se com as múltiplas obscuridades e ambigüidades, tomando um sentido por outro.29 Nem chegam a encontrar, em algumas passagens, alguma interpretação. E assim, projetam sobre os textos obscuros as mais espessas trevas. Não duvido de que a obscuridade dos Livros santos seja por disposição particular da Providência divina, para vencer o orgulho do homem pelo esforço e para premunir seu espírito do fastio, que não poucas vezes sobrevém aos que trabalham com demasiada facilidade.
Basta dizer que ninguém contesta o fato de se aprender mais espontaneamente (libenter) qualquer coisa com a ajuda de comparações; e que se descobre com maior prazer (gratius) as coisas que se procuram com certa dificuldade. Os homens que não encontram logo o que procuram sentem fome, e os que, ao contrário, têm tudo à mão, muitas vezes, desfalecem de fastio. Ora, num caso como em outro, é preciso evitar o langor. Para isso, o Espírito Santo dispôs de maneira magnífica e salutar as Escrituras santas, para que elas venham saciar a nossa fome nas passagens mais obscuras. Mas, na verdade, quase nada sobressai nessas obscuridades que não esteja mais claramente expresso em outro lugar.
- Antes de toda e qualquer coisa, é preciso converter-se pelo temor de Deus para conhecer-lhe a vontade, para saber o que ele nos ordena buscar ou rejeitar. Necessário é que este temor incuta o pensamento de nossa mortalidade e da futura morte e fixe no lenho da cruz todos os movimentos de soberba, como se nossas carnes estivessem atravessadas pelos cravos.30
Em seguida, é preciso tornar-nos mansos pela piedade, para não contradizermos a Escritura divina. Seja quando ela for compreendida e vier repreender alguns de nossos vícios, seja quando, incompreendida, nós nos imaginarmos capazes de julgar e ensinar melhor do que ela. Devemos, ao contrário, pensar e crer que é muito melhor e mais verdadeiro o que está escrito ali, ainda que oculto, do que o que possamos saber por nós próprios.
- Depois desses dois graus do temor de Deus e da piedade, chega-se ao terceiro, o grau da ciência, justamente sobre o qual eu me propus escrever nesta obra. Porque é nes-se grau que se há de exercitar todo o estudioso das divinas Escrituras, com a intenção de não encontrar nelas outra coisa mais do que o dever de amar a Deus por Deus, e ao próximo por amor de Deus. A este com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente; ao próximo como a si próprio (Mt 22,37-39). O que significa que todo o amor ao próximo, assim como o amor a nós próprios, se há de referir a Deus.
Essa ciência que leva à santa esperança não torna o homem presunçoso, mas antes o faz suplicante. Com esse afeto obtém, mediante diligentes súplicas, a consolação do auxílio divino, para que não caia no desespero. Desse modo, o estudioso da Escritura começa a entrar no quarto grau, isto é, na fortaleza, pela qual se têm fome e sede de justiça. Graças a essa força, ele afasta-se de toda alegria mortífera das coisas temporais e, apartando-se delas, dirige-se ao amor dos bens eternos, isto é, da imutável Unidade que é a Trindade, idêntica a ela própria.
- Apenas o homem — o quanto lhe foi possível — chega a divisar de longe o fulgor dessa Trindade e reconhece que a fraqueza de sua vista não pode suportar aquela luz, e sobe ao quinto grau, isto é, ao conselho, fundamentado sobre a misericórdia, onde purifica sua alma tumultuada e como desassossegada pelo clamor da consciência das imundícies contraídas, devido ao apetite das coisas inferiores. Ele se exercita especialmente no amor ao próximo e se aperfeiçoa nele.
Em seguida, na plenitude de sua esperança, na integridade de suas forças, chega até o amor aos inimigos e sobe ao sexto grau. Lá, purifica os olhos com os quais Deus pode ser visto — o quanto é possível — pelos que morrem para este mundo. Porque eles vêem a Deus, à medida que morrem para este século. Contudo, à medida que vivem para este século, não o vêem. Embora o aspecto dessa luz divina comece já a mostrar-se não só mais segura e tolerável, mas também mais agradável, é preciso ainda dizer que só se pode vê-lo “em enigma e em espelho” (1Cor 13,12), porque, enquanto peregrinamos nesta vida, caminhamos mais pela fé do que pela visão (2Cor 5,6.7), ainda que nossa conversação seja com o céu (Fl 3,20). Quem chegou a este grau purifica de tal modo os olhos de seu coração que não pode preferir, e sequer comparar, a Verdade suprema a nada, nem ao próximo, nem ao ser que ele mais ama, isto é, a si próprio.
Esse santo, em conseqüência, terá coração tão purificado, tão simples que não se apartará da verdade por interesse de agradar aos homens, nem com o fim de evitar os mil aborrecimentos que tornam infeliz esta vida presente. Esse filho de Deus eleva-se até à sabedoria, que é o sétimo e último grau onde gozará delícias, tranqüilo e em paz.31 “O começo da sabedoria é, com efeito, o temor de Deus” (Sl 110,10 e Eclo 1,16). Dele se parte e por esse grau1 se há de chegar à sabedoria.
O investigador mais diligente (solertissimus indagator) das Sagradas Escrituras será, em primeiro lugar, o que as tiver lido integralmente e delas tomado conhecimento, se não quanto ao sentido pleno, pelo menos quanto à leitura perseverante. Trata-se, bem entendido, dos livros chamados canônicos. Porque os outros, ele os lerá com mais segurança quando estiver mais instruído na fé da verdade. Evitará assim que esses escritos se apoderem de seu espírito débil, prejudicando-o com perigosas falsidades e trazendo-lhe idéias contrárias a uma sadia compreensão.
A primeira observação a ser feita quanto a essa busca e empresa é, como já dissemos, tomar conhecimento dos Livros santos. Se, a princípio, não se conseguir apreender o sentido todo, pelo menos fazer a leitura e confiar à memória as santas palavras. De toda forma, nunca ignorar por completo os Livros sagrados. Em seguida, se há de verificar com grande cuidado e diligência os preceitos morais e as regras de fé que a Escritura propõe com clareza. Encontram-se tão mais abundantemente, quanto maior for a abertura do entendimento de quem busca, visto que nas passagens que a Escritura oferece com clareza encontram-se todos os preceitos referentes à fé e aos costumes, à esperança e à caridade, sobre os quais tratamos no primeiro livro.
Tendo então adquirido certa familiaridade com a linguagem das divinas Escrituras, devemos prosseguir examinando as passagens obscuras em vista de as esclarecer e explicar. Chega-se lá tomando exemplos de textos mais claros. Assim, o testemunho das sentenças de sentido certo fará desaparecer a dúvida das sentenças de sentido incerto.
- Ora, há duas causas da incompreensão do texto da Escritura. A verdade encontra-se oculta por signos desconhecidos ou por signos de sentido figurado. Com efeito, os signos são ou próprios ou figurados. São chamados próprios quando empregados para designar os objetos para os quais foram convencionados. Por exemplo, dizemos: boi, e relacionamos com o animal que todos os homens de língua latina denominam por esse nome. Os signos são figurados ou metafóricos, quando as mesmas coisas, que denominamos com seu termo próprio, são também tomadas para significar algo diferente. Por exemplo, dizemos: boi e por essa palavra entenderemos o animal que se costuma chamar por esse nome e, além disso, entenderemos que se alude ao pregador do evangelho, conforme o deu a entender a Escritura na interpretação do Apóstolo, que disse: “Não amordaçarás o boi que tritura o grão” (1Cor 9,9).
- Entretanto, os homens mostram-se tanto mais chocados (sobre esses erros gramaticais) quanto mais são ignorantes. E são tanto mais ignorantes, quanto mais querem parecer instruídos, não quanto à verdadeira ciência das coisas que nos edificam, mas quanto à ciência dos signos com a qual nos é difícil não cair no orgulho, visto que até a ciência da verdade nos faz cair no orgulho, quando não se submete o espírito ao jugo do Senhor.